Em Meio há Travessia

Entre Maré Alta e Farol, a Escrita Como Infusão de Luz…

Seria uma noite intensa.
Como se o mar, surgisse no horizonte em ondas altas e inquietas. Ela se segurava ha beira do convés da própria existência, sentindo a água bater contra os joelhos do tempo, enquanto o coração pulsava em ritmo de maré alta.

No meio da tempestade, um farol aceso ao longe rasgava a escuridão, tênue, mas firme. Um sinal de que, apesar do medo e do silêncio, havia caminho. Havia um porto. Havia esperança.

Assim a porta do quarto se fecha devagar.

Não há batida brusca. Não há gesto dramático. Apenas o clique discreto da maçaneta e, com ele, o mundo inteiro parece finalmente desabar.

Cláudia encosta as costas na porta.

O corpo, que sustentou firmeza por horas, começa a tremer.

Ela desliza lentamente até o chão.

As mãos, antes tão firmes, agora procuram apoio no próprio colo. A respiração sai irregular. Não é o choro alto das novelas. É um choro sufocado, quase infantil. Um som que ela não se permitia fazer há anos.

Ali, sozinha, não há marido.
Não há postura para manter.
Não há dignidade para sustentar.

Há medo.

Medo do tratamento.
Medo do espelho.
Medo de sentir dor.
Medo de não reconhecer o próprio corpo.
Medo de precisar e não querer depender.
Medo de morrer palavra que ela evita até pensar inteira.

Ela leva a mão ao seu ventre, como se pudesse tocar o lugar exato onde tudo começou.

Eu não estou pronta… sussurra para ninguém.

E, pela primeira vez naquele dia, ela não é a mulher decidida.
É apenas humana.

As lágrimas descem livres agora. Não apenas pelas mentiras. Não apenas pelo casamento. Mas pelo acumulo. Pelos trinta anos reprimindo emoções. Pela exaustão de ser forte sempre, segurando dores antigas.

Ela pensa na palavra Câncer ecoando como sentença.

E sente uma solidão funda. Mesmo dentro da própria casa.

O quarto está em silêncio. A cama arrumada. As fotos nos porta retratos da cabeceira da cama mostram aniversários da filha quando criança, viagens, sorrisos congelados no tempo. Eu olho para foto do casamento nós dois abraçados, felizes e sente algo estranho.

Não é ódio. É luto.

Luto pela mulher que acreditou que tudo era definitivo.
Luto pela versão dela que sempre esperava que dessa vez seria diferente.
Luto pela ingenuidade que a manteve ali por tanto tempo.

O choro desacelera.

O medo continua.

Mas, no meio da vulnerabilidade, algo pequeno começa a surgir. Não é força ainda. É instinto.

Ela percebe que, apesar de tudo, está respirando.

Apesar do diagnóstico, está viva.
Apesar do medo, está consciente.
Apesar do abalo, está de pé e ainda que sentada no chão.

Cláudia leva as mãos ao rosto, enxuga as lágrimas com firmeza.

Eu não posso me abandonar agora diz em voz baixa.

Essa frase não sai como motivação. Sai como necessidade.

Ela sabe que os próximos meses serão difíceis. Que o corpo vai mudar. Que o casamento talvez não resista. Que haverá dias de fraqueza.

Mas ali, naquele chão frio do quarto, nasce um compromisso silencioso:

Se tudo estiver desmoronando, que pelo menos ela permaneça consigo.

Ela se levanta devagar.

Vai até o espelho.

Olha para o próprio reflexo por um tempo longo demais para ser confortável.

Não vê apenas uma mulher sob uma maré alta de céu aberto..
Não vê apenas uma paciente recém-diagnosticada.

Vê alguém assustada.
Cansada.
Ferida.

Mas viva.

E, pela primeira vez em muitos anos, ela não desvia o olhar de si mesma.

O mundo lá fora pode continuar exigindo postura.
O marido pode continuar entre o abismo e o folego..
O tratamento pode vir com força.

Mas ali, naquele quarto silencioso, Cláudia faz algo revolucionário:

Ela se escolhe.

Mesmo tremendo.
Mesmo com medo.
Mesmo sem saber como.

E às vezes, é assim que começa a verdadeira coragem
não na explosão,
mas no momento em que ninguém está olhando.

A casa está em silêncio. Um silêncio diferente. Não o silêncio confortável de uma rotina antiga, mas aquele silêncio que parece observar, como se as paredes soubessem que algo mudou.

Cláudia está deitada, olhos abertos no escuro.

O relógio marca 2h17.

Ela fecha os olhos. Abre de novo. Vira para um lado. Vira para o outro. O travesseiro parece duro demais. O lençol, pesado demais. O próprio corpo parece estranho como se já não fosse completamente dela.

A palavra volta.

Câncer.

Ela tenta não repetir mentalmente, mas ela insiste. Câncer. Câncer. Câncer.

Durante o dia, conseguiu ser racional. Perguntou sobre tratamentos, prazos, porcentagens. Agiu como alguém forte. Mas a madrugada não aceita personagens.

A madrugada quer verdade.

E a verdade é que ela está com medo.

Medo da dor física.
Medo da quimioterapia.
Medo da queda do cabelo.
Medo de olhar no espelho e não se reconhecer.
Medo de ser vista como frágil.
Medo de depender.

Mas o medo mais profundo não é o da morte.

Ela pensa na filha. No rosto dela ainda criança, correndo pela casa. Pensa nas festas de aniversário, nas noites em claro quando estava doente. Quando começou a ir nas festas com as amigas Pensa em como sempre foi o eixo, o centro, a sustentação.

Quem sustenta quando a sustentação fraqueja?

O quarto está escuro, mas a mente dela está iluminada demais.

Ela vira o rosto discretamente para o lado da cama onde o marido dorme. Consegue ouvir a respiração pesada do sono. Ele dorme.

Há algo quase simbólico naquela imagem: ela acordada, encarando o futuro; ele dormindo, alheio ao turbilhão que a atravessa.

Uma lágrima escorre silenciosa para o travesseiro.

Não é uma lágrima desesperada. É uma lágrima lúcida.

Pela primeira vez, ela entende que sempre teve medo de ficar sozinha e agora percebe que, mesmo acompanhada, enfrentará essa travessia de forma profundamente individual.

O tratamento será no corpo dela.
A dor será no corpo dela.
A transformação será no corpo dela.

Ninguém pode atravessar isso por ela.

O relógio marca 3h02.

Ela se senta na cama. O coração bate acelerado. Um pensamento invade, cru, direto:

“E se eu morrer?”

A frase fica suspensa no ar.

Ela nunca tinha permitido que essa possibilidade ganhasse forma. Agora ganha. E dói.

Mas, logo depois, outro pensamento surge, inesperado:

“E se eu viver?”

E se eu viver diferente?
E se eu parar de aceitar menos do que mereço?
E se eu usar essa dor como ruptura?
E se isso for um chamado não para o fim, mas para uma virada?

Ela leva a mão ao peito, sentindo o próprio ritmo cardíaco.

Está vivo.

Ela está viva.

Respira fundo. Uma, duas, três vezes.

O medo continua ali, mas já não domina sozinho. Ele divide espaço com algo novo uma espécie de urgência serena.

Se o tempo agora é precioso, ela não quer gastá-lo em silêncio forçado. Não quer desperdiçar energia quer ser inteira.

Talvez o câncer tenha chegado como invasor.

Mas talvez ele também tenha vindo como revelação. Revelando todos os mistérios.

Revelação de que a vida não é infinita.
De que o amor próprio não pode ser adiado.
De que permanecer por medo é mais perigoso do que recomeçar.

O relógio marca 4h11.

A exaustão começa a pesar nas pálpebras.

Antes de finalmente fechar os olhos, Cláudia faz um acordo silencioso consigo mesma: Se eu acordar amanhã, eu começo diferente.

Não sei como.
Não sei por onde.
Mas começo.

E, na primeira noite depois do diagnóstico, entre o medo da morte e a possibilidade de renascimento, algo muda definitivamente dentro dela.

Ela ainda não sabe
mas aquela insônia não era apenas ansiedade.

Era o nascimento de uma nova mulher.

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