Histórias da sala de espera: Cartografia silenciosa da espera humana.
A do lenço azul
Ela dobra o lenço azul sobre o colo como se fosse uma carta que ainda não tem coragem de abrir. depois cria coragem e coloca na cabeça como se fosse uma coroa..
“Eu ainda não contei para minha mãe. Ela mora em outro estado, irei ve-la no natal, e também Ela é mais velha que eu… tenho medo de ser forte por nós duas.”
A mulher ao lado aperta a bolsa contra o peito.
“Eu contei ontem. Ela chorou menos do que eu.”
As duas riem. Não porque é engraçado. Mas porque é o que impede as lágrimas de transbordarem ali mesmo.
No silêncio que segue, não há constrangimento. Há reconhecimento.

A que já começou a quimio
Ela chega devagar. O lenço não esconde totalmente a ausência dos cabelos.
“A primeira sessão eu achei que não ia voltar pra segunda.”
Alguém pergunta baixinho:
“E como você conseguiu?”
Ela pensa antes de responder.
“Eu não consegui. Eu só fui. Tem diferença.” E segue seu relato:
A sessão de quimioterapia parecia mais longa que qualquer outra coisa que eu já tivesse vivido. Não era apenas o tempo que se estendia, era o peso de tudo o que estava acontecendo.
Entrei naquela sala carregando medo, mas tentando fingir coragem. As cadeiras alinhadas, o silêncio quebrado apenas por conversas baixas e pelo som dos equipamentos, tudo parecia dizer a mesma coisa: “ali ninguém queria estar, mas todos estavam lutando para ficar”.
Quando a agulha entrou e o medicamento começou a correr pelo meu corpo, pensei que não conseguiria voltar para uma segunda vez. Naquele momento, a ideia de repetir aquilo parecia impossível. Eu mal conseguia lidar com o presente.
Mas a quimioterapia tem uma coisa curiosa: ela ensina que a coragem não aparece inteira. Ela vem em pedaços. Vem em pequenas decisões: levantar da cama, atravessar a porta aqui da clinica, sentar outra vez naquela cadeira.
A primeira sessão eu achei que não voltaria.
Mas voltei.
E, às vezes, sobreviver começa exatamente assim: voltando para lugares que juramos que nunca mais enfrentaríamos.
Uma mulher mais jovem engole em seco.
Talvez seja isso que ela precisava ouvir.


A que ainda espera o resultado final
Ela segura o envelope fechado. Não abre.
“E se for pior do que eu estou imaginando?”
Uma senhora de cabelos grisalhos responde:
“E se for melhor?”
A jovem olha para ela, surpresa.
A senhora sorri:
“A cabeça da gente sempre escolhe o cenário mais cruel. Às vezes a realidade não é tão dramática quanto o medo.”
Mas todas sabem: às vezes é.
E ainda assim, estão ali.
A que fala do corpo
— “Eu tenho medo de não me reconhecer depois.”
Silêncio.
— “Eu também.”
— “Eu tenho medo do meu marido não me reconhecer.”
A mais velha do grupo ajeita a blusa, onde uma cicatriz antiga quase aparece.
— “Eu demorei pra me reconhecer. Mas aprendi que eu sou maior do que o pedaço que tiraram de mim.”
A frase fica suspensa no ar como uma vela acesa.
A que não chora
Ela olha para todas e diz:
— “Eu não chorei ainda. Isso é estranho?”
“Não.”
“Não.”
“Não.”
As respostas vêm em coro, quase automáticas.
Uma completa:
— “Cada uma atravessa do jeito que dá.”
E, pela primeira vez naquela manhã, alguém toca a mão de outra.
Não é amizade.
É pacto silencioso.
O que todas escutam
Entre uma chamada e outra, o que ecoa não são só palavras.
É: O medo compartilhado que diminui de tamanho quando dito em voz alta.
A coragem improvisada.
A exaustão de ser “forte” o tempo todo.
A esperança tímida, mas persistente.
Na sala de espera, ninguém escolheu estar ali.
Mas, por alguns minutos, elas não estão sozinhas.
E às vezes, é isso que sustenta.

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