Não sei ser sem palavra
Um quase diário de uma mulher que se inventa enquanto o corpo desorganiza o mundo

A imaginação antecede a realidade. E ela não sabe mais onde começa uma e termina a outra, porque tudo se embaralhou como fios de um tecido que foi lavado muitas vezes e perdeu o desenho original. O que resta não é forma, é sensação. Uma espécie de claridade úmida por dentro, como se a vida tivesse passado a morar no avesso das coisas.
Ela pensa: se eu só sei imaginar palavras, então talvez eu só saiba existir pela linguagem. Mas isso não é pouco. Isso é perigoso. Porque palavras não seguram o corpo, mas o inventam. E inventar-se é um risco maior do que adoecer.
Depois do diagnóstico oncológico, algo se deslocou sem pedir licença. Não foi só o corpo, foi o modo de estar nele. O corpo deixou de ser evidência e virou hipótese. Antes, ela dizia “eu sou”. Agora, hesita: “eu estou, por enquanto”. E esse “por enquanto” é uma palavra que escorre pelos dedos como água tentando ser segurada.
Ela lembra do instante em que a notícia foi dita pela médica. Não como drama, mas como uma frase comum demais para caber em tanto abismo. E foi isso que a assustou: a normalidade daquilo que deveria gritar. O mundo continuou igual do lado de fora, mas dentro dela alguma coisa se sentou no chão e ficou em silêncio absoluto, como quem perdeu o idioma.
Mas é nesse silêncio que ela começa a ouvir outra coisa. Não uma voz, uma espécie de vibração. Uma linguagem anterior à linguagem. E ela tenta nomear isso, falha, tenta de novo, falha melhor. Porque há fracassos que são formas de aproximação.
Ela sempre amou demais. Isso não mudou. O que mudou foi a direção do excesso. Antes, o amor saía dela como se fosse infinito. Agora, ele volta. E quando volta, encontra um corpo que não sabe mais se é casa ou passagem. Amar demais, ela percebe, é também não saber conter a própria vida dentro de si.
E há dias em que isso pesa como pedra. Em outros, flutua como poeira iluminada. Depende da luz, depende do medo, depende do modo como o mundo resolve tocar nela.
Ela se observa como quem observa alguém muito distante. A mulher no espelho não é outra, mas também não é a mesma. Há uma estranheza doce e cruel nisso: reconhecer-se sem pertencimento imediato. E então ela pensa que talvez a identidade seja isso, um descompasso permanente entre o que somos e o que conseguimos sustentar de nós mesmos.
O tratamento começa a ocupar o tempo como uma nova forma de relógio. Um relógio que não marca horas, mas estados. Dias de força, dias de ausência, dias em que até o pensamento parece cansado de existir. E ela aprende uma coisa que ninguém ensina: o corpo não é obediente. Ele conversa, ele interrompe, ele impõe pausas.
Mas ainda assim, entre pausas e interrupções, ela escreve. Escrever se torna uma maneira de não desaparecer completamente. Não porque a escrita salve, mas porque ela sustenta o intervalo entre o desaparecimento e o retorno. Escrever é ficar suspensa sem cair.
E as palavras que ela imagina não são bonitas. São necessárias. São palavras que chegam antes da forma, como Clarice Lispector talvez dissesse sem dizer. Palavras que ainda não sabem ser frase, mas já sabem ser presença.
“Eu não sou mais a mesma”, ela escreve sem escrever, porque nem sempre o verbo precisa de papel. E logo se corrige: mas qual de mim estava inteira antes? Talvez nunca tenha havido inteireza, apenas uma continuidade disfarçada de estabilidade.
O mundo continua acontecendo. Pessoas atravessam ruas, compram pão, discutem trivialidades. E isso a espanta: como é possível que tudo continue? Mas depois ela entende que essa continuidade não é indiferença. É apenas a forma que a vida encontrou de não parar.
Há manhãs em que ela acorda com uma lucidez estranha, quase cruel. Uma lucidez que não consola. Ela percebe o próprio corpo como território em disputa entre a finitude e a insistência. E não sabe para qual lado torcer. Porque ambos são verdade.
E há também tardes em que a vida parece leve, quase indecente de tão leve. Nesses momentos, ela sente culpa por ainda existir sem dor. Como se a ausência de sofrimento fosse uma traição ao que foi nomeado. Mas logo percebe que isso também é uma armadilha: transformar dor em identidade é outra forma de prisão.
Ela começa a desconfiar das narrativas prontas. Não há superação, não há lição clara. Há apenas continuidade fragmentada. E isso é tudo.
Um dia, ela se pega olhando para uma xícara de café como se ela fosse um acontecimento. A borda quente, o cheiro, a fumaça que sobe como uma tentativa de céu. E percebe: o extraordinário não desapareceu. Apenas ficou mais difícil de ignorar.
A imaginação, então, muda de função. Não é mais fuga. Não é mais invenção de mundos melhores. É sobrevivência do real. Ela imagina palavras como quem toca o próprio pulso para ter certeza de que ainda há ritmo.
E há.
Mesmo quando fraco. Mesmo quando irregular. Mesmo quando quase silêncio.
Ela se lembra de uma frase que não sabe se leu ou inventou: viver é aceitar ser atravessada pelo que não se entende. E ela foi atravessada. Não uma vez, mas muitas. Pelo amor, pelo medo, pelo diagnóstico, pela espera, pelo próprio pensamento que não cessa.
E cada atravessamento deixa um rastro. Não de destruição, mas de abertura. Como se algo tivesse sido rasgado para que o mundo entrasse.
Há noites em que ela conversa consigo mesma sem palavras. Apenas presença. E isso é mais íntimo do que qualquer linguagem. Porque palavras às vezes organizam demais o que deveria permanecer em tremor.
Ela pensa: talvez eu esteja me tornando outra coisa. Não melhor, não pior. Apenas outra. E isso não é escolha. É processo.
O corpo muda de ritmo. A vida muda de textura. E ela começa a perceber que o tempo não é linha. É respiração. Expansão e recolhimento. E ela está dentro dessa respiração, sem controle sobre o próximo movimento.
O amor, aquele que foi excessivo, continua ali. Mas agora ele não busca saída. Ele se espalha dentro. E isso é mais silencioso, mais profundo, mais perigoso. Porque não tem onde cair.
Ela entende, sem entender completamente, que não existe separação real entre amar e existir. E que talvez adoecer seja apenas um modo brutal de lembrar isso.
Num dia qualquer, ela abre a janela e o vento entra como se tivesse direito. E tem. O vento sempre teve direito. Ela apenas tinha esquecido.
E nesse instante mínimo, quase imperceptível, algo nela cede. Não é cura. Não é resposta. É uma pequena rendição ao fato de que ainda há mundo fora dela, e dentro também.
A imaginação antecede a realidade. Mas agora ela desconfia: talvez não anteceda. Talvez acompanhe. Talvez seja a forma como a realidade aprende a não ser tão dura.
E ela, que só sabe imaginar palavras, começa a entender que isso não é limitação. É método de permanência.
Porque enquanto houver palavra, mesmo quebrada, mesmo falha, mesmo tremendo, haverá um modo de continuar sendo.
E isso, ela percebe sem dizer em voz alta, é o mais próximo que consegue chegar de um milagre: não desaparecer completamente dentro daquilo que a atravessa.
Ela respira.
E no meio desse gesto simples, quase invisível, existe tudo.
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