No Silêncio da Cabeça Vazia, Escuto Meu Próprio Pulsar…
Viver é perigoso??
Então com sua licença.
Não tenho medo.
Nasci assim, encantada pela vida”.
( Clarice Lispector).
“E que eu tenha a coragem de me enfrentar.” Clarice Lispector
O Cabelo que Cai
Não são apenas fios.
São pedaços de mim.
O espelho devolve outra mulher.
Quase irreconhecível.
Toco a cabeça.
Sinto medo.
Sinto desapego.
Cada fio que cai me lembra que identidade
não está no cabelo.
Está no olhar que permanece.
No pulsar que não se cansa.
No coração que insiste.
“Sou maior do que era antes.” – Clarice Lispector
Náuseas e Ondas Invisíveis
O corpo se move sem aviso.
Ondas invisíveis.
O gosto da comida mudou.
O café da manhã já não é alegria.
É desafio.
É aprendizado.
Pequenas porções.
Líquidos gelados.
Mastigar devagar.
Respirar devagar.
A náusea lembra: existir é esforço diário.
Cada vitória, por menor que pareça, é monumental.
“Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.”
Clarice Lispector
O Cansaço que Habita os Ossos
Não é cansaço comum.
É um cansaço que se infiltra nos ossos.
No coração.
No pensamento.
Levantar da cama é vitória.
Aceitar a lentidão é coragem.
A mente quer seguir.
O corpo pede pausa.
Aprendo a ouvir.
Pele, Unhas e Formigamentos
A pele resseca.
As unhas se quebram.
Mãos e pés formigam.
O corpo reage.
O corpo muda.
Mesmo na fragilidade, há beleza.
Prova de que estou viva.
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
Clarice Lispector
Imunidade e o Mundo Reduzido
O mundo ficou menor.
Medir temperatura.
Evitar aglomerações.
Cada abraço tem peso.
Cada gesto simples é gigantesco.
O amor se transforma.
O carinho se multiplica.
Aprendo que resistir também é depender.
Alterações no Apetite e no Paladar
O alimento favorito perdeu gosto.
Um sabor estranho ocupa a boca.
Cada refeição é descoberta.
Cada gole é conquista.
Viver é adaptar-se.
Até o gosto metálico ensina algo.
Feridas na Boca e Mucosite
Falar dói.
Comer dói.
Beijar dói.
A dor lembra: até o simples é difícil.
O cuidado se torna ritual.
O gesto delicado, poesia.
Aprendo gentileza comigo mesma.
Neuropatia e Formigamentos Intensos
Mãos e pés dormem.
Formigam.
Cada movimento exige atenção.
Cada passo é presença.
Cada toque é consciência.
A força não é ausência de dor.
É atenção.
É persistência.
É coragem.
Emoções à Flor da Pele
Medo.
Tristeza.
Alegria.
Esperança.
Tudo pulsa dentro de mim.
Choro.
Sorrio.
Aprendo a viver emoções em plenitude.
Amar demais inclui amar a mim mesma.
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
Clarice Lispector
Alterações na Pele e nas Unhas
A pele muda.
As unhas mudam.
Há fragilidade.
Há sensibilidade.
Há transformação.
Cada cuidado é poesia.
Cada gesto, delicadeza.
Mudança não é perda.
É reinvenção.
E o Futuro
O pensamento se volta ao amanhã.
A vida que virá.
O que pode ser perdido.
O que pode ser preservado.
Escuto o pulsar.
Escutar é resistir.
Escutar é existir.
A vida pulsa.
Insiste.
Resiste.
“E que eu tenha a coragem de me enfrentar.”
Clarice Lispector
Existem dores que não fazem escândalo.
Elas se instalam devagar, como poeira sobre os móveis da casa.
Quando percebemos, já aprendemos a conviver com elas.
Sou esposa por trinta anos.
Em alguns dias, fui inteira.
Em outros, fui resistência.
Entre promessas sussurradas no altar e silêncios engolidos na cozinha, descobri que o amor não é um lugar onde se descansa, é um território onde se amadurece.
Houve rachaduras.
Houve remendos.
Houve noites em que a fé parecia menor que o medo.
Mas houve também algo que nunca me deixou: A decisão de continuar viva por dentro.
Despindo-me de Quem Fui…
O sentimento é que minha identidade é outra. Eu me olhava no espelho e via alguém que não reconhecia. Não era apenas a mulher em tratamento. Era a mulher que estava sendo desmontada. Enquanto os fios se desprendiam, outra perda acontecia em silêncio: a da mulher que amava demais. Aquela que se moldava. Que cedia antes de ser pedida. Que suportava para manter inteiro o que já estava trincado. Que confundia permanência com amor.
A quimioterapia fez o que anos de silêncio não conseguiram: arrancou de mim o excesso. Sem cabelos, sem forças, sem disfarces, eu não tinha mais como sustentar personagens. Foi ali, diante do espelho cru, que comecei a entender: Eu não estava apenas tratando uma doença. Eu estava enterrando uma versão minha. Chorei o luto da mulher que fui. Não com raiva. Mas com gratidão. Ela fez o melhor que sabia. Ela amou como aprendeu. Ela ficou quando acreditava que ficar era virtude. Mas sobreviver não é o mesmo que viver. Quando o último fio caiu, algo inesperado nasceu:
Leveza.
Sem moldura.
Sem artifício.
Sem o peso de precisar ser necessária para ser amada.
Descobri que identidade não mora no cabelo.
Nem no sacrifício.
Mora na consciência.
E ali, despida de quem fui, comecei a me vestir de quem sou.
A Travessia
O Primeiro Dia Sem Lenço:
Demorei mais para tirar o lenço do que para perder o cabelo.
Aprendi a colocar o lenço como quem coloca uma coroa.
Como se fosse uma fronteira
Entre o que eu sabia
e o que o mundo veria.
Naquela manhã, fiquei alguns minutos diante do espelho.
A cabeça nua parecia maior que o corpo.
Os olhos, maiores que a coragem.
Passei a mão devagar.
Não havia fios para organizar.
Não havia nada para esconder.
Havia só eu.
Saí de casa sentindo o vento tocar diretamente a pele, muita pele.
Era estranho.
Era cru.
Era injusto.
O primeiro olhar veio rápido.
Depois outro.
E mais um.
Alguns desviavam.
Outros fixavam por segundos longos demais.
Havia pena em alguns rostos.
Curiosidade em outros.
E dentro de mim, uma sentimento quente.
Não da doença.
Não do tratamento.
Mas da exposição.
Eu não queria ser símbolo.
Não queria ser exemplo de força.
Não queria ser “guerreira”.
Eu queria ser invisível.
Esse sentimento não era contra as pessoas.
Era contra a vulnerabilidade que eu não escolhi.
Passei anos sendo a mulher que sustentava tudo:
a harmonia,
o casamento,
a imagem.
E agora eu não conseguia sustentar nem o próprio cabelo.
Foi ali, caminhando sob olhares que pareciam atravessar minha pele, que entendi:
A perda do cabelo não arrancou minha feminilidade.
Arrancou meu controle.
E talvez fosse isso que mais doía.
Naquele dia, eu não sorri para tranquilizar ninguém.
Não abaixei a cabeça.
Não me expliquei.
Eu caminhei.
E cada passo dizia, silenciosamente:
“Vocês podem olhar. Eu continuo inteira.”
Voltei para casa diferente.
Ainda careca.
Ainda doente.
Mas menos disposta a me esconder.
Descobri também que não me esconder é parte da cura.
Ela queima o que precisa morrer.
E deixa espaço para uma dignidade nova nascer.
Mas confesso que por instantes esse sentimento que Transformava dor em força me acompanhava como sombra silenciosa.
Não era apenas pelo cabelo caído, nem pela doença que me atravessava.
Pelos anos que me anulei, tentando ser inteira para os outros e esquecendo de mim.
No espelho daquela manhã sem lenço, não vi fragilidade.
Vi o reflexo de uma mulher que finalmente sentia toda sua indignação de uma vez.
Um sentimento justo, quente, humana.
E foi nesse sentimento que encontrei o começo da liberdade.
Porque para renascer, primeiro é preciso sentir o que ainda dói.
E eu senti.
Não escondi meu rosto.
Não suavizei minha postura.
Não pedi desculpas por existir.
E, pela primeira vez em anos, percebi: minha raiva não me diminui.
Ela me revela.
Ela me conecta comigo mesma.
Entre o silêncio das ruas e os olhares curiosos, algo mudou:
Eu não precisava mais sustentar a imagem que o mundo esperava.
Eu só precisava sustentar a verdade que vivia dentro de mim.
E ali, careca e inteira, comecei a aprender que raiva também é mapa.
Mapa que mostra onde dói, onde é preciso cuidar, e onde floresce uma força que ninguém pode roubar.
Experiência da Raiva à Gratidão
Claro que a raiva não desapareceu de repente.
Ela foi minha companheira por dias e semanas.
Mas, pouco a pouco, aprendi a escutá-la.
Ela me contou verdades que eu vinha ignorando:
verdades sobre meu corpo, meu casamento, meus limites, minha alma.
E foi nesse ouvir que a fé começou a nascer.
Não a fé dos discursos bonitos, nem a fé de promessas fáceis.
A fé silenciosa, firme, que se instala quando entendemos:
Não podemos controlar tudo, mas podemos escolher como nos manter inteiras.
A coragem também veio devagar.
Veio nas manhãs em que eu saía sem lenço, enfrentando olhares que antes teriam me esmagado.
Veio nas palavras que eu disse e não disse, nas decisões pequenas e grandes.
Veio na escolha de permanecer comigo mesma, mesmo quando tudo ao redor parecia instável.
E a gratidão… ah, a gratidão.
Não a gratidão ingênua, mas aquela que floresce no chão duro da vida.
A gratidão pelas pequenas vitórias:
um dia sem náusea;
um sorriso que não esperava,
um gesto de carinho silencioso.
A gratidão por continuar viva, inteira, e, mesmo com feridas, capaz de sentir amor por mim mesma.
A raiva, então, se transformou.
Não desapareceu mas passou a servir como combustível.
Ela virou luz que iluminava os cantos escuros do meu ser,
mostrando onde eu precisava crescer,
onde eu precisava perdoar,
onde eu precisava aprender a me amar.
E assim, entre dor, silêncio e olhares curiosos, descobri:
não precisamos esperar a tempestade passar para florescer.
Podemos florescer enquanto a tempestade ainda sopra,
e encontrar força, fé e gratidão mesmo nos dias mais sombrios.
Sempre escolhi o Amor e a Vida em tudo que fiz inclusive nas mudanças que nasceram da raiva e da dor que não ficaram apenas dentro de mim.
Elas começaram a tocar cada gesto, cada palavra, cada silêncio que compartilho com quem amo.
No casamento, aprendi a dizer não sem medo. A dizer isso não me serve;
A colocar limites que antes eram invisíveis.
A aceitar que amor não significa anular-se;
E que permanecer ao lado de alguém não exige apagar a própria voz.
Nos pequenos rituais do dia a dia que eu pisava em ovos, café da manhã, conversa no fim da tarde, a rotina que antes parecia sufocante;
descobri beleza e sentido.
O que antes era apenas obrigação, agora é presença.
Estar inteira comigo mesma me permitiu estar inteira com os outros, sem expectativas injustas, sem medo de me perder.
E nas relações com amigos, familiares, estranhos na rua, encontrei uma nova ternura.
Não aquela ternura que agrada, que busca aprovação.
Mas a ternura que nasce da honestidade, da consciência de quem somos e de quem podemos ser.
Aprendi a acolher, sem me diluir.
Aprendi a ouvir sem carregar o peso de curar tudo.
O cotidiano passou a ser altar de pequenas vitórias:
O sorriso de quem me entende;
A lembrança que não esperava;
O abraço que chega na hora certa.
Cada momento me lembra que viver plenamente não é ausência de dor, mas presença de consciência e coragem.
Hoje, quando olho para trás, não vejo apenas perdas.
Vejo aprendizados que vieram disfarçados de feridas.
Vejo que a fé que floresceu dentro de mim não é abstrata:
ela é a força que me faz levantar da cama nos dias difíceis.
A coragem que me faz seguir, mesmo com medo.
E a gratidão que me permite enxergar beleza onde antes só havia dor.
E assim sigo. Com o coração mais firme, com o olhar mais suave.
Entre o amor e a vida, aprendi a me sustentar inteira.
E, no silêncio das pequenas coisas, encontrei a paz que antes buscava fora
e que sempre esteve dentro de mim.



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