A luz que atravessa
No coração dos dias mais silenciosas.

Entre a luz que cura o corpo e a luz que desperta a alma, há dias em que caminho devagar.
Não por cansaço. Nem por medo. Há um ritmo que o corpo aprende quando deixa de querer vencer o tempo e passa apenas a acompanhá-lo. Tenho caminhado assim desde que meus dias passaram a ser marcados por uma luz que não se vê.
Todos os dias atravesso a cidade para encontrar essa luz. Entro numa sala branca, deito meu corpo sobre uma mesa, permaneço imóvel. Há uma precisão silenciosa em tudo. As pessoas falam baixo, como se soubessem que certos gestos não gostam de barulho.
Depois a máquina gira ao meu redor.
Não sinto a luz.
E, no entanto, ela me atravessa.
Durante muito tempo pensei que a cura fosse sempre um combate. Uma guerra entre aquilo que ameaça e aquilo que resiste. Agora começo a desconfiar de outra linguagem. Talvez exista uma forma de cuidado que não faça alarde. Talvez algumas transformações aconteçam justamente porque são invisíveis.
É estranho confiar naquilo que não posso ver.
Mas não é disso que a vida sempre foi feita?
Também nunca vi o amor enquanto amava de mais. Via apenas seus gestos. Nunca vi o tempo passando; vi as fotografias. Nunca vi a esperança. Apenas a manhã seguinte.
Agora também não vejo essa luz.
Ainda assim, ofereço-lhe meu corpo.
E, sem perceber, começo a oferecer-lhe algo mais difícil: minhas antigas certezas.
Volto para casa, o silêncio me acompanha. Antes eu o chamaria de solidão. Hoje sei que não é.
O silêncio tem mudado de nome.
Ele se senta ao meu lado quando preparo o meu café. Caminha comigo pelos casa. Descansa comigo na poltrona perto da janela. Não exige conversa. Apenas permanece.
Foi nesse permanecer que comecei a ouvir uma mulher que durante muitos anos falou tão baixo que sua voz se confundia com a dos outros.
Ela não reclamava.
Esperava.
Esperava enquanto eu aprendia a amar ocupando todos os lugares, menos o meu.
Esperava enquanto eu acreditava que cuidar era sempre esquecer de mim.
Esperava enquanto eu oferecia luz a tantos, sem notar que vivia às escuras de mim mesma.
Não houve um dia exato em que a encontrei.
Foi acontecendo.
Como acontece a manhã: ninguém vê o instante preciso em que a noite termina.
Um dia compreendi que havia duas luzes atravessando meu corpo.
Uma vinha da máquina.
Precisava alcançar células invisíveis para devolver ao corpo a possibilidade da cura.
A outra não vinha de lugar algum.
Ou talvez sempre tivesse estado aqui, tão antiga quanto o primeiro espanto de estar viva. Eu apenas passara anos procurando claridade no rosto dos outros, sem imaginar que havia uma chama discreta esperando que eu finalmente me voltasse para ela.
As duas trabalhavam em silêncio.
Nenhuma fazia promessas.
Nenhuma podia apressar o tempo.
Apenas atravessavam.
Há uma delicadeza inesperada em ser atravessada pela luz.
Ela não pergunta quem fui.
Não mede meus excessos de amor, minhas ausências, minhas culpas, os dias em que me perdi tentando salvar o mundo de alguém.
A luz apenas faz o seu trabalho.
E, talvez pela primeira vez, compreendo que eu também não preciso fazer mais do que isso.
Não preciso vencer todos os medos hoje.
Não preciso responder a todas as perguntas.
Não preciso voltar a ser quem eu era.
Basta permanecer disponível para aquilo que, em silêncio, me refaz.
Ainda caminho devagar.
Há dias em que a névoa retorna e cobre o horizonte. Já não me aflijo tanto. Aprendi que nem toda claridade serve para enxergar longe. Algumas existem apenas para iluminar o próximo passo.
E isso basta.
Porque agora sei que a luz que atravessa meu corpo para curá-lo encontrou, pelo caminho, outra luz.
Uma luz sem máquinas, sem nome, sem urgência.
Aquela que esperou, pacientemente, que eu atravessasse a mim mesma para enfim reconhecê-la.
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