Eu me tornei o intervalo entre duas respirações

Eu me tornei o intervalo entre duas respirações
Há uma hora da noite em que tudo deixa de ter nome.
A cadeira já não é cadeira.
A janela já não é janela.
O corpo já não é corpo.
Tudo retorna ao seu estado de mistério.
Foi nessa hora que o diagnóstico entrou em mim.
Não entrou pela porta do consultório nem pela voz do médico. Entrou por um lugar mais antigo. Um lugar sem geografia. Como a água entra na terra rachada sem pedir licença.
E eu ouvi.
Não a notícia.
A rachadura.
Porque certas palavras não são palavras. São pedras atiradas dentro de um poço. O som que ouvimos não é a queda. É a profundidade.
E desde então tenho habitado essa profundidade.
Há dias em que acordo e sinto que meu corpo é uma casa antiga durante uma tempestade. As paredes ainda estão de pé, mas alguma coisa range nos alicerces. Alguma coisa conversa com o vento.
Então caminho pela manhã como quem atravessa um sonho que ainda não decidiu se quer continuar existindo.
Olho para minhas mãos.
As mesmas mãos.
Mas não são.
Nada permanece igual depois que a morte, ainda distante, encosta seu rosto no nosso.
Não para nos levar.
Apenas para nos lembrar.
E a lembrança da finitude é uma luz estranha.
Ela não ilumina o mundo.
Ela ilumina o invisível.
De repente, uma folha caindo se torna um acontecimento.
Uma xícara esquecida sobre a mesa parece carregar séculos.
O voo de um pássaro atravessando o céu possui a solenidade de uma oração.
Tudo fica maior porque tudo se torna passageiro.
E eu compreendo que nunca enxerguei realmente as coisas.
Eu apenas passava por elas.
Agora não.
Agora cada instante me atravessa como um rio atravessa uma pedra.
Devagar.
Insistentemente.
Até modificar sua forma.
Eu sempre amei demais.
Hoje penso nisso como quem toca uma cicatriz.
Há ternura.
Há dor.
Há espanto.
Amei como as marés amam a lua.
Sem escolha.
Sem medida.
Sem retorno.
E talvez tenha sido por isso que tantas vezes me perdi.
Porque o amor excessivo tem algo de oceano.
Não conhece margens.
Não respeita territórios.
Invade.
Transborda.
Afoga.
Mas também revela continentes desconhecidos.

Quando adoeci, descobri que havia passado anos oferecendo abrigo aos outros enquanto deixava vazia a própria casa.
E então encontrei uma mulher sentada dentro de mim.
Ela estava em silêncio.
Esperando.
Não tinha idade.
Não tinha rosto.
Era apenas presença.
Talvez fosse eu.
Talvez fosse aquela que eu seria se tivesse aprendido a me escutar antes.
Sentamos juntas.
Sem perguntas.
Sem respostas.
Porque há momentos em que a alma não quer entendimento.
Quer companhia.
E desde então caminho ao lado dela.
Às vezes choramos.
Às vezes apenas observamos a tarde morrer lentamente atrás da janela.
Há uma beleza insuportável nos fins de tarde.
O céu parece saber algo que nós ignoramos.
As nuvens se desfazem sem resistência.
A luz desaparece sem revolta.
Tudo aceita partir.
Menos nós.
Nós passamos a vida inteira aprendendo a permanecer.
E talvez por isso a doença seja tão assustadora.
Ela nos ensina a linguagem da impermanência.
Ela nos obriga a conversar com aquilo que sempre fingimos não existir.
O fim.
Mas o fim não chegou.
O que chegou foi outra coisa.
Uma delicadeza.
Uma delicadeza feroz.
Uma delicadeza que me faz parar diante de uma flor nascendo entre rachaduras de concreto e sentir vontade de chorar.
Porque ela não deveria estar ali.
E, no entanto, está.
Como eu.
Há manhãs em que acordo cansada.
Há noites em que o medo se senta na beira da cama.
Há instantes em que o futuro parece um corredor longo demais.
Mas então alguma coisa acontece.
Um vento.
Uma palavra.
Um raio de sol atravessando a cortina.
E tudo volta a respirar.
Não sou mais a mulher de antes.
Mas começo a suspeitar que nunca fui.
Talvez eu tenha passado anos vestindo versões de mim mesma sem perceber.
Agora elas caem uma a uma.
Como folhas no final do outono.
E sob todas elas encontro algo menor.
Mais frágil.
Mais verdadeiro.
Uma espécie de semente.
A doença não me ensinou a ser forte.
Ensinou-me a ser pequena.
E existe uma grandeza imensa em ser pequena.
As sementes sabem disso.
As estrelas sabem disso.
O silêncio sabe disso.
Apenas nós esquecemos.
Hoje caminho devagar.
Como quem carrega água nas mãos.
Como quem atravessa um jardim à noite para não acordar as flores.
Como quem sabe que viver não é possuir o tempo.
É ser atravessada por ele.
Às vezes penso que sou feita da mesma matéria dos rios.
Nunca sou a mesma.
Nunca paro de partir.
Nunca paro de chegar.
E talvez seja isso que a vida seja.
Não uma estrada.
Não uma resposta.
Mas um rio.
Um rio escuro e luminoso.
Profundo e passageiro.
Que segue correndo mesmo quando não sabemos para onde.
E eu sigo com ele.
Não porque compreenda.
Mas porque respiro.
E enquanto houver dentro de mim esse pequeno movimento invisível de maré —
esse abrir e fechar da existência —
esse sopro que vem de tão longe e vai para tão longe —
eu continuarei.
Não inteira.
Não curada.
Não pronta.
Mas viva.
Como uma chama pequena atravessando a noite.
Como uma flor improvável nascendo no escuro.
Como uma palavra que ainda procura sua própria luz.
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