Eu me aconteço no escuro

Uma História de crescimento, coragem e reinvenção.

Há coisas que chegam à nossa vida de surpresa. Não porque sejam mal-educadas, mas porque já estavam dentro da casa antes de nós. O medo é assim. O amor também. E, descobri depois, a doença.

Quando entendi minha condição, não senti o chão desaparecer. Essa é uma metáfora muito usada e, para mim, não aconteceu. O chão permaneceu exatamente onde estava. Quem desapareceu fui eu.

Fiquei olhando para as coisas como quem as vê pela primeira vez. Uma cadeira deixou de ser uma cadeira. Um copo deixou de ser um copo. Tudo estava estranhamente vivo, como se o mundo tivesse retirado a maquiagem e mostrado a pele.

Talvez a proximidade da finitude tenha esse poder: devolver às coisas a sua nudez.

Passei a observar uma folha caída no quintal como quem observa um mistério. Como é possível que uma folha saiba cair? Como é possível que eu não saiba adoecer?

Porque adoecer não é apenas uma condição do corpo. É uma mudança de idioma. O corpo continua o mesmo território, mas as palavras que o habitam tornam-se estrangeiras.

E eu, que sempre amei demais, percebi que também havia amado meu corpo como se ele fosse eterno. Não por vaidade. Por distração.

A eternidade é uma distração dos vivos.

Foi então que comecei a perceber que dentro de mim havia uma mulher que eu nunca tinha encontrado. Ela estava escondida atrás das urgências, dos afetos excessivos, das pessoas que salvei sem conseguir salvar a mim mesma.

Ela esperava em silêncio.

E o silêncio, aprendi, não é ausência de som. O silêncio é uma espécie de mar profundo. Na superfície, tudo parece imóvel. Mas, lá embaixo, criaturas luminosas atravessam a escuridão.

Foi no fundo desse mar que encontrei a mim.

Não a mulher forte que todos esperavam.
Não a mulher corajosa das histórias de superação.
Não a heroína.

Encontrei uma mulher assustada.

E foi um encontro sagrado.

Porque a coragem verdadeira não nasce da força. Nasce quando o medo encontra uma cadeira e decide sentar-se ao nosso lado sem nos expulsar de nós mesmos.

Passei então a habitar os dias de outra maneira.

A manhã já não era apenas manhã.

Era um pássaro pousado no fio do mundo.

O café fumegando sobre a mesa era uma pequena nuvem doméstica.

A água correndo da torneira era um rio insistindo em ser rio.

Tudo parecia me dizer algo que eu ainda não compreendia.

Clarice talvez dissesse que a vida não quer ser entendida. Quer ser tocada.

E eu comecei a tocar a vida com a ponta dos dedos.

Devagar.

Como quem toca uma ferida e uma flor ao mesmo tempo.

Porque adoecer me ensinou uma verdade estranha: a dor e a beleza costumam nascer da mesma raiz.

É difícil explicar.

Há dias em que o corpo é um jardim devastado por uma tempestade.

Mas até nos jardins devastados alguma coisa continua brotando.

Uma pequena flor entre pedras.

Um galho insistindo em verdejar.

Uma esperança tão discreta que quase passa despercebida.

Eu passei a amar essa discrição.

Antes, eu amava os excessos.

Agora amo o quase.

O quase amanhecer.
O quase silêncio.
O quase descanso.

Porque descobri que a vida não mora nos grandes acontecimentos.

A vida mora entre um acontecimento e outro.

Como a luz que existe entre as folhas de uma árvore.

Como o vento que não pode ser visto, mas movimenta tudo.

Como o sopro.

E talvez eu seja apenas isso.

Um sopro tentando compreender outro sopro.

Uma mulher sentada diante do mistério de estar viva enquanto a própria vida lhe escapa pelos dedos.

Mas há algo que permanece.

As palavras.

Não porque elas expliquem.

Elas não explicam nada.

As palavras são pássaros.

A gente abre a mão e elas voam.

Mesmo assim continuamos chamando por elas.

Porque, às vezes, uma palavra pousa no ombro da alma e fica.

E quando fica, ilumina.

Foi assim que sobrevivi.

Não através das respostas.

As respostas sempre chegaram atrasadas.

Sobrevivi através das perguntas.

Quem sou eu agora? Quem é a Cláudia…

O que permanece quando tudo muda?

Que mulher nasce quando a outra precisa morrer?

Não encontrei solução para nenhuma delas.

Mas comecei a entender que viver talvez não seja encontrar respostas.

Talvez viver seja permanecer diante do enigma sem fugir.

Como quem contempla o mar sabendo que nunca o possuirá.

Como quem olha uma estrela sabendo que sua luz vem de um passado inalcançável.

Como quem ama.

Porque amar também é aceitar não possuir.

E eu amei demais.

Amei até me perder.

Mas hoje suspeito que me perder foi o caminho.

A semente também precisa desaparecer na terra para descobrir que é árvore.

Talvez eu esteja acontecendo assim.

Debaixo da superfície.

No escuro.

Entre raízes invisíveis.

Entre dores sem linguagem.

Entre medos que já não precisam esconder o rosto.

Talvez eu esteja florescendo justamente onde pensei que terminaria.

E essa é a mais estranha das belezas.

Porque não se parece com vitória.

Não se parece com cura.

Não se parece sequer com esperança.

Parece apenas vida.

Vida em estado bruto.

Vida sem explicação.

Vida sendo.

E, pela primeira vez, isso me basta.

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