A MULHER QUE NINGUÉM VÊ: Porque não se volta de um renascimento…

A mulher que ninguém vê aprendeu, sem querer, o que Clarice Lispector já tinha sussurrado:
“liberdade é pouco”. Porque agora não se trata de ser livre, trata-se de caber dentro do próprio corpo, esse lugar que de repente ficou estreito.
O diagnóstico não foi um instante. Foi uma infiltração.
“não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” Ela repete, como quem segura uma xícara quente demais.
E vive. Mesmo sem entender.
Há dias em que acorda com uma espécie de silêncio mineral. Como se estivesse sendo reduzida ao essencial. E então lembra:
“sou feita de restos”.
Mas restos de quê?
De uma vida anterior?
Ou do que ainda está por nascer? Ela renascerá…
A mulher que ninguém vê toca o próprio medo como quem toca um animal ferido. Não afasta a mão. Fica. Porque, no fundo, reconhece:
“O medo faz parte da vida”.
E há uma estranha intimidade nisso, como se a dor fosse também uma forma de pertencimento.
Outro dia, no meio de uma espera que parecia não acabar, veio uma frase como lâmina suave:
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”.
Ela entendeu de outro jeito.
Cortar, agora, não é escolha.
O corpo decide antes.
E ainda assim, ou por causa disso, alguma coisa nela começa a se tornar mais nítida.
A mulher que ninguém vê descobre que há uma coragem que não tem gesto heroico. É uma coragem mínima: levantar, respirar, continuar; Porque agora cada dia é um dia, nada é como antes…
“coragem é um coração batendo”.
E o dela bate, às vezes descompassado, às vezes cansado, mas bate.
À noite, quando o mundo diminui e tudo fica mais verdadeiro, ela quase entende o que nunca caberia em palavras:
“há um grande silêncio dentro de mim”.
Mas agora esse silêncio não é vazio.
É travessia.
E talvez, ela pensa, com uma delicadeza que não chega a ser esperança…
talvez existir seja isso:
ser atravessada.
A mulher que ninguém vê descobriu que o tempo não passa, ele se aprofunda.
Antes, os dias eram uma sequência quase distraída: manhã, café, estrada, obrigações que se cumpriam como quem respira sem perceber. Agora, não. Agora cada minuto tem peso. Como se o tempo tivesse deixado de ser linha e se tornado matéria, algo que encosta na pele, que às vezes fere.
O diagnóstico não aconteceu em um momento único. Ele continua acontecendo. É uma espécie de eco que não termina de chegar. Ainda há instantes em que ela se esquece, um segundo de distração enquanto lava uma xícara, enquanto olha pela janela, e então lembra de novo. E é sempre como a primeira vez.
Ela não diz o nome da doença. Há palavras que, quando pronunciadas, parecem crescer demais dentro da boca. E ela precisa de espaço para respirar.
Penso, então, no que Clarice Lispector escreveu:
“não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Mas viver assim, ela percebe não é simplesmente continuar. É ser obrigada a olhar. É não poder mais passar por si mesma sem se ver.
E ver-se dói.
Há uma estranha inversão: o corpo, que antes era pano de fundo, tornou-se protagonista. Cada sensação carrega uma suspeita. Cada cansaço é observado com um cuidado excessivo, quase supersticioso. O corpo virou pergunta.
E ela, que sempre habitou esse corpo como quem mora numa casa antiga, agora se sente visitante. Percorre os próprios gestos com cautela, como se algo pudesse quebrar, embora não saiba exatamente o quê.
“Sou feita de restos”, lembra, novamente, como se a frase tivesse sido escrita para este exato momento.
Restos de certezas.
Restos de distração.
Restos da mulher que atravessava a rua sem saber que atravessava também uma vida inteira.
Mas há algo que não é resto. Algo que, curiosamente, cresce.
Uma espécie de atenção.
Ela começa a notar o intervalo entre uma respiração e outra. O modo como a luz da tarde encosta na parede. O barulho distante de alguém vivendo uma vida que ainda parece intacta.
E então pensa, não com palavras, mas com uma sensação: talvez nunca tenha estado tão viva.
Isso a assusta.
Porque viver, agora, não é leve. É denso. É quase excessivo.
“Liberdade é pouco”, ecoa novamente dentro dela.
Sim, liberdade é pouco para quem descobriu que o próprio corpo pode ser limite.
Às vezes, ela se pergunta: onde começa o corpo? Onde termina?
A doença está dentro, mas o medo está em todo lugar. E não é um medo raso, é um medo profundo.
E o medo, ela prende, não grita. Ele sussurra. Ele se instala nos pequenos vazios. No tempo de espera. No olhar que demora um segundo a mais.
“O medo faz parte da minha vida”.
Ela repete isso sem acreditar totalmente. Como quem experimenta uma frase por dentro, tentando ver se ela cabe.
Há dias em que cabe.
Há dias em que não cabe.
Em uma manhã qualquer, que não era qualquer, ela acorda com uma sensação nova: não é dor, não é exatamente tristeza. É uma espécie de deslocamento.
Como se tivesse sido retirada de si mesma durante a noite e devolvida de forma imperfeita.
Levanta-se devagar. O chão está frio, e isso a ancora. Há algo de profundamente concreto no frio. Ele não mente.
Vai até o espelho, mas não se reconhece imediatamente. Não porque tenha mudado por fora, mesmo sem cabelo, ainda é a mesma, mas não se reconhece porque há algo no olhar que não estava ali antes.
Uma espécie de saber.
E saber cansa.
Ela desvia o olhar. Nem tudo precisa ser encarado de uma vez. Há uma sabedoria nova nisso também: A de dosar o contato com a própria realidade.
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”.
A frase surge sem contexto, mas faz sentido.
Agora, cortar não é metáfora.
Cortar é possibilidade concreta.
Cortar é decisão que talvez não seja dela.
E, no entanto, há algo que permanece intocado.
Uma espécie de núcleo.
Ela percebe isso quando, sem motivo aparente, sente vontade de rir. Um riso pequeno, quase tímido, mas real. Como se alguma parte dela não tivesse sido informada da gravidade da situação.
Ou talvez, pensa: essa parte saiba de algo que o medo desconhece.
O dia segue. As pessoas falam com ela como sempre falaram. Há uma normalidade insistente no mundo. E isso, por vezes, a irrita.
Como pode tudo continuar?
Mas depois entende: O mundo não sabe.
E talvez nem precise saber.
Há uma solidão específica nessa travessia. Não é a solidão de estar só, é a de estar em um lugar onde ninguém mais pode entrar completamente.
Mesmo quando explica, algo ficaria de fora.
Algo que não se traduz.
“Há um grande silêncio dentro de mim”.
Sim. E esse silêncio não é vazio. É cheio demais.
À noite, ela deita e sente o corpo como território.
Mas não mais como antes. Nunca mais será como antes…
Agora há zonas de incerteza. Regiões onde a confiança não chega inteira. Lugares onde o pensamento retorna, insiste, tenta decifrar.
Mas o corpo não responde em linguagem clara. Porque confunde-se com uma cartografia.
E então ela entende, não com lógica, mas com uma espécie de aceitação: talvez não haja resposta.
Talvez haja apenas a travessia.
E atravessar, ela aprende não é sair de um ponto e chegar a outro. É se transformar no caminho.
Há uma tristeza nisso. Mas também há algo que não é tristeza.
Algo que se aproxima de uma verdade crua:
ela não tem controle.
E, curiosamente, isso abre um espaço.
Se não há controle, há presença.
Se não há garantia, há agora.
Ela respira.
Uma vez.
Outra. Lembra Clarice Lispector:
“Coragem é um coração batendo”.
O meu bate. Às vezes acelerado, às vezes cansado, às vezes quase imperceptível. Mas bate.
E cada batida é, de algum modo, uma afirmação.
Não de vitória.
Não de superação.
Mas de existência.
A mulher que ninguém vê fecha os olhos.
Não para dormir… ainda não, mas para sentir melhor o que não pode ser visto.
Há medo, sim.
Há dor.
Há uma espécie de luto pelo que ainda não terminou.
Mas há também algo que ela não sabe nomear.
E talvez nem precise.
Porque, no fundo, começa a suspeitar:
nomear demais pode diminuir.
E ela já não quer diminuir nada.
Nem a dor.
Nem o medo.
Nem essa estranha, densa, quase insuportável sensação de estar viva.
Então ela fica.
Sem resposta.
Sem conclusão.
Sem promessa.
Fica como quem atravessa
não porque sabe o caminho,
mas porque, de algum modo, ainda pulsa.
E pulsar, agora, não é pouco.
É tudo.

Publicar comentário