Conversas num silêncio cheio de coisas que ainda não sabemos dizer.
Em mais uma tarde sento-me para Conversar com Clarice Lispector:
Refletimos sobre identidade, memória e vida atravessada pelo diagnóstico…
Quando passei a ler apenas com a emoção, Clarice Lispector entrou e se instalou de forma definitiva na minha vida. Até se tornar quase tão indispensável para mim quanto a agua que mata minha cede. Aos poucos, ela se transformou num apoio indispensável para os meus momentos de dor e medo. Uma espécie de oráculo para as minhas dúvidas existenciais. Sempre a palavra justa a conferir sentido ao que me acontecia. Mesmo que a palavra justa estivesse às vezes encoberta no meio de uma escrita muito mais vertiginosa do que meu pensamento era capaz de alcançar. Hoje consigo fechar os olhos e me ver sentada diante de Clarice Lispector.
Não há palavras entre nós, apenas o silêncio que respira e pulsa, como se o mundo inteiro tivesse se recolhido para escutar. Sinto que cada gesto seu, cada olhar, é um convite a mergulhar fundo nas minhas próprias dúvidas, nos medos que escondo, nos instantes que a vida deixou escapar sem pedir licença. E ali, naquele instante que não pertence a nenhum tempo, começo a perceber que viver não é entender, mas sentir; não é chegar, mas permanecer; não é explicar, mas simplesmente existir, inteira, em todo o mistério que nos envolve..
Não é uma conversa comum. Clarice nunca foi de respostas fáceis. Talvez ela apenas me olhasse em silêncio por alguns instantes, como quem percebe que as perguntas mais importantes não cabem na pressa. Sinto seu abraço, e que cada olhar dela é um mergulho na vida que ainda não entendi.
Pergunto-lhe:
— Clarice; às vezes sinto que a vida nos leva por caminhos que não escolhemos. Caminhos desafiadores, cheios de medo. Como se, de repente, tudo aquilo que parecia seguro se tornasse frágil.
Ela talvez inclinasse levemente a cabeça, com aquele olhar que parece atravessar as palavras…
— Mas a vida nunca foi segurança, talvez respondesse. A vida é descoberta.
Ficaríamos em silêncio por alguns segundos.
Porque com Clarice o silêncio também fala.
— E o medo? eu perguntaria. O que fazemos com ele?
Ela talvez sorrisse de um jeito discreto, quase imperceptível.
— O medo também faz parte da vida. O importante não é eliminá-lo. É continuar vivendo mesmo quando ele está ali. Porque é depois do medo que a vida acontece…
Penso que, nesse momento, eu respiraria mais fundo. Talvez porque perceberia algo simples e ao mesmo tempo profundo: A coragem não é ausência de medo. A coragem é caminhar apesar dele.
— Às vezes me sinto frágil, eu diria ainda. Como se certas experiências me desmontassem por dentro.
Clarice provavelmente não se apressaria em consolar.
— Ser humano é isso, ela diria. Somos feitos de rachaduras. Mas é justamente por elas que a luz entra.
Eu ficaria pensando nessa frase.
Porque há momentos na vida em que tudo parece quebrado. O corpo cansa, a mente se enche de perguntas, e o coração tenta encontrar sentido no meio do caos. Nesses momentos, conversar com Clarice seria como lembrar que a fragilidade também faz parte da experiência de estar vivo.
— Então a dor também ensina? eu perguntaria.
— Ensina muito ela responderia: mas não como uma lição de escola. Ensina transformando quem somos.
Talvez fosse isso que mais me tocaria nessa conversa imaginária.
Clarice não tentaria explicar demais a vida. Ela apenas me convidaria a senti-la com profundidade.
— E a esperança? eu perguntaria por fim. Onde ela mora quando tudo parece frágil e difícil?
Clarice provavelmente responderia de forma simples:
— A esperança mora no fato de que continuamos.
Continuamos respirando.
Continuamos perguntando.
Continuamos tentando compreender.
E talvez seja justamente nisso que mora a beleza da vida: na capacidade humana de seguir adiante mesmo quando o caminho não está completamente claro.
Conversar no imaginário com Clarice Lispector é uma mistura de emoções. É como abrir uma porta para dentro de mim mesma.
Ao mesmo tempo em que surgiam perguntas, também apareciam silêncios cheios de significado. Não era uma conversa feita apenas de palavras, mas de sensações, pensamentos e descobertas.
Havia momentos de inquietação, porque as perguntas que surgiam não eram simples. Clarice parecia me convidar a olhar para lugares da alma que muitas vezes evitamos visitar. Lugares onde moram nossas fragilidades, nossos medos e também nossas verdades mais profundas.
Mas, junto com essa inquietação, vinha algo muito bonito: uma sensação de liberdade.
Como se alguém dissesse que não precisamos ter todas as respostas para continuar vivendo. Que sentir, questionar e até se perder um pouco pelo caminho também faz parte da experiência humana.
Ao Conversar silenciosamente com a autora, fui percebendo que a vida não precisa ser totalmente compreendida para ser vivida com intensidade.
E talvez tenha sido isso que mais me marcou nessa conversa silenciosa: A descoberta de que, dentro das nossas perguntas, também pode nascer uma forma nova de coragem. Talvez seja esse o motivo por que gosto tanto dos seus escritos, Ela traz nas entrelinhas da escrita, o que é existir no limite, como sentir cada fragmento do corpo e da alma ao mesmo tempo. Eu e Clarice tivemos em comum o mesmo diagnóstico. Câncer de útero…
A palavra não dói apenas no corpo.
Ela ecoa na memória, nos medos antigos, nos silêncios que evitamos.
E de repente, tudo que li de Clarice ganha outro sentido.
As palavras dela parecem sussurrar para mim: “Olhe para si. Descubra o que é verdadeiro.”
Sinto que não estou apenas lendo uma autora.
Sinto que estou conversando com alguém que atravessou o mesmo fio, que sentiu a mesma fragilidade e ainda assim se manteve inteira.
É estranho e confortante ao mesmo tempo.
Como se o medo tivesse companhia.
Como se minha vida, mesmo marcada pelo diagnóstico, pudesse encontrar beleza e poesia nos fragmentos, assim como ela sempre encontrou.
E penso: talvez seja por isso que suas histórias me tocam tanto.
Porque Clarice não escreve sobre o mundo; ela escreve sobre existir, sobre sentir, sobre a vida pulsando dentro do silêncio e da dor.
E agora, sabendo que compartilhamos essa mesma travessia, a fragilidade, o medo, a presença do corpo que se transforma, sinto que suas palavras me entendem como ninguém jamais poderia.
O corpo agora me parece estranho e familiar ao mesmo tempo.
Cada célula fala uma língua que eu ainda tento decifrar.
O espelho me devolve um rosto que conheço e não conheço.
É minha identidade que se revela aos poucos, em pedaços que se encaixam e se desfazem.
Quem sou eu agora? pergunto em silêncio.
Você é rio… diria Clarice, se pudesse me responder.
Rios mudam de leito, secam, transbordam, mas continuam sendo rios.
Eu sou esse rio, atravessando medo, dores e lembranças.
No jardim, sento-me junto à sombra tranquila das árvores e deixo que meus pensamentos respirem.
Observo a rua, as pessoas passando, indiferentes.
Mas eu estou aqui, inteira e fragmentada.
Viva.
Sinto o cheiro leve das folhas e das flores, como se o tempo ali tivesse aprendido a andar devagar, ouço risos que se perderam.
Tudo mistura-se com o agora.
Tudo pulsa.
Tudo é poesia.
O câncer atravessa meu corpo, mas também atravessa minha alma.
Sinto medo, mas também sinto vida pulsando.
Cada respiração é urgente, cada batida do coração é música.
Não há linearidade, não há certeza.
Há apenas este instante, este corpo, este pensamento, este sentimento.
E se eu me perder? pergunto a Clarice em minha mente.
Você não se perderá, lembre-se você é RIO — responde ela silenciosamente. — Você Mudará, se transformará, mas continuará inteira.
Escrevo minhas pequenas frases como âncoras:
- “Meu corpo é mapa, uma cartografia e a dor, bússola.”
- “Cada respiração é lembrança e promessa.”
- “Existir é aceitar-se inteira, mesmo quebrada.”
Cada folha que balança nas árvores parece pulsar comigo.
Ali naquele jardim, encontro um silêncio que me escuta. Pois tudo carrega minha memória, minhas emoções, minha presença.
O mundo lá fora continua indiferente.
Mas aqui, dentro de mim, há vida.
Fragmentada, frágil, intensa.
E isso basta.
Fecho os olhos e sinto cada pedaço de mim.
Medo, dor, lembranças, desejo, silêncio — tudo pulsa.
E percebo: ser inteira não significa estar intacta.
Ser inteira é conhecer cada pedaço de si mesma e ainda assim continuar existindo.
Eu existo.
Inteira. Fragmentada. Viva.
A hora de mim chegou…
Penso: e agora, quem sou eu?
De repente, Clarice surge viva em meu pensamento, não como sombra ou lembrança distante.
Mas como se estivesse sentada ao meu lado, olhos atentos, calmos, conhecendo todos os mistérios do mundo. e me pergunta:
— Você sente medo?
— Sim — digo, quase sem voz. — Medo de deixar de ser eu.
Ela sorri.
— Medo é centelha. Ele prova que você ainda está viva.
No silencio observo meu corpo.
Estranho, familiar, meu e ao mesmo tempo, como se não me pertencesse mais.
— Quem é você agora? — pergunto, mais para mim do que para ela.
— Você é fragmento e inteiro ao mesmo tempo — responde Clarice. — Isso é existir.
O jardim se enche de silêncio.
Mas não é silêncio vazio.
É um silencio cheio de palavras e lembranças.
Dos amores da juventude..
O primeiro abandono.
O riso que se perdeu, a promessa que nunca cumprimos.
Tudo volta, em fragmentos, misturando-se ao presente.
— digo, quem sou eu, se meu corpo falha? Qual minha identidade
— Identidade não é retrato. — Ela responde devagar. — É rio.
Rios mudam de leito, secam, transbordam, mas continuam sendo rios.
Você é esse rio. E você é mesmo com medo, mesmo com dor, você ainda flui.
Começo a escrever palavras no caderno, pequenas âncoras no caos:
Clarice sorri e diz:
— Viver não é mostrar-se inteira aos outros — diz ela — é se conhecer inteira, mesmo em pedaços.
Fecho os olhos.
Sinto cada fragmento de mim: memória, medo, dor, lembrança, desejo.
Tudo pulsa.
Tudo existe.
— Ainda há você — sussurra Clarice.
E eu respiro.
Respiro e percebo: ser inteira não significa estar intacta.
Significa conhecer cada pedaço de si mesma, abraçar medo, dor, silêncio, e ainda assim continuar existindo.
O coração bate.
O ar entra.
O mundo gira.
Eu existo, inteira na fragmentação.
A hora de mim chegou.
Clarice O que é tempo agora?
Ela responde: O tempo parece tanto e tão pouco ao mesmo tempo.
Cada instante é urgente. Cada respiração, mil anos.
O passado invade, o presente se dobra, e o futuro ainda não veio.
Tudo se mistura, ela continua dizer: A vida não é em linha reta, não se vive uma história linear. O destino.
É instante. É fragmento. É existir.
Clarice, e se eu meu caminho mudar? — pergunto.
— Você continuará caminhando — responde ela, suave. — Você só mudará de forma.
Mudança de caminho não é desaparecimento.
Mudança de caminho é descoberta.
E então percebo: meu corpo pode falhar, minha memória pode doer, meu coração pode temer.
Mas a vida continua dentro de mim.
Cada fragmento, cada medo, cada lembrança, cada instante é poesia.
A existência pulsa, apesar de tudo, apesar de mim, apesar do câncer.
No silêncio, eu sinto: ainda há vida.
Ainda há eu.
E isso basta.
Fecho os olhos.
Respiro.
E finalmente aceito que ser inteira não significa estar intacta.
Significa conhecer cada pedaço de si mesma e ainda assim continuar a existir.
Eu existo.
Inteira. Fragmentada. Viva.
A hora de mim chegou.
Quando imagino essa conversa chegando ao fim, percebo que não saio com respostas prontas. Mas saio diferente. Mais atenta. Mais sensível. Porque conversar com ela — mesmo que na imaginação — foi, no fundo, uma forma de conversar com aquilo que existe de mais profundo dentro de mim: Consegui fazer Reflexões sobre identidade, memória e vida atravessada pelo diagnóstico… E mais consciente de que viver não é encontrar certezas, mas aprender a caminhar dentro das perguntas. E talvez seja por isso que tantas pessoas voltam às palavras de Clarice para aprender a confiar no próprio passo…


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