A quimioterapia é pior do que eu queria e melhor do que eu temia.
Entre cada sessão, a vida ensina a continuar: histórias de um tratamento transformador
Tem dias de enjoo que me deixam pequena. Dias em que subir três degraus parece escalar uma montanha. Dias em que eu odeio o mundo por continuar normal enquanto o meu virou ir para clínica, consultas , exames, farmácias…
Mas também tem dias inesperados.
Dias em que eu rio de piadas bobas com outras mulheres na sala de infusão. Dias em que uma enfermeira segura minha mão na hora da agulha. Dias em que eu me sinto parte de um exército silencioso de mulheres carecas, inchadas, cansadas e incrivelmente vivas.
Eu aprendo coisas estranhas:
Que força não é ausência de medo.
Que coragem às vezes é só comparecer.
Que o corpo pode sofrer e ainda assim cooperar.
Que pedir ajuda não me diminui.
Eu paro de adiar pequenas vontades.
Uso batom vermelho mesmo indo para a clínica.
Tiro fotos careca na clínica.
Mando mensagens que antes eu teria vergonha de mandar.
Digo “eu amo você” sem esperar ocasião especial.
Algo dentro de mim amadurece à força.
Eu não romantizo a doença. Não agradeço por ela. Não acho que “veio para ensinar”.
Mas reconheço: Tento resignicar…
Ela me despiu.
E, despida, eu descobri que existo além do cabelo, além da aparência, além dos planos lineares.
Sou maior que o medo que senti naquela sala de espera.


Onde a dor se encontra com a coragem e nasce a esperança:
Quando o corpo sofre, mas o espírito encontra caminhos de coragem. As pessoas dizem:
Parece outra pessoa? E eu penso:
Mas Sou.
Entro na sala da oncologia para mais um ciclo do tratamento, mais uma sessão de quimioterapia.
Vejo uma menina nova,sentada na poltrona ao lado segurando o celular como se fosse âncora.
Eu reconheço aquele olhar.
Sento ao lado dela.
Primeira vez? pergunto.
Ela assente, dizendo sim.
Eu sorrio, não com superioridade, mas com memória.
A pior parte é o antes: eu digo. Depois a gente caminha um passo de cada vez.
Enquanto falo, percebo:
Eu me tornei a mulher que eu precisava encontrar naquele primeiro dia.
E isso, talvez, seja a transformação mais profunda de todas.
Outra paciente nos observa e diz: “Antes que Chamem meu nome”
preciso falar: Fazem quatro dias que a palavra mora dentro de mim.
Câncer. ela continua:
Ela não combina com a minha idade. Não combina com o meu quarto bagunçado, com as mensagens não respondidas, com as fotos do último fim de semana. Não combina com a minha pele ainda com marcas de sol, com os planos de viajar no meio do ano, com a faculdade trancada “temporariamente”.
Câncer é palavra de gente mais velha.
De tia.
De avó.
Não minha.
O relógio da sala de espera faz um barulho que ninguém mais deve ouvir, mas eu ouço. Tic. Tic. Tic. Parece que está contando alguma coisa que eu não sei o que é.
Tempo de vida?
Tempo até chamarem meu nome?
Tempo até eu deixar de ser quem eu era?
Eu deveria mandar mensagem para alguém. Mas não sei o que escrever.
“Oi, tudo bem? Talvez eu tenha uma doença que pode me matar, mas ainda estou esperando confirmação. Você viu aquela série?”
É impossível caber isso numa conversa normal.
Tem uma mulher sentada perto de mim. Tem olheiras de quem acorda cedo para fazer café da manhã para alguém. Fico pensando se ela tem filhos pequenos. Fico pensando se eu tivesse um filho pequeno, mas tenho meus netos… teria mais medo ou menos?
Eu continuo pensando…Porque aqui sempre penso muito sobre tudo;
E é isso que dói. Não é nem o corpo, é a interrupção, ou melhor a inconsistência..
Eu tinha planos tão comuns que chegam a ser ridículos agora:
– Pintar o cabelo, morena iluminada.
– Pensar uma nova rotina para os finais de semana.
– Comprar um carro eletrico.
– Ir para o Nordeste sozinha com as amigas, uma viajem de mulheres.
Agora eu pesquiso na internet palavras que nunca quis aprender:
“sobrevida”
“taxa de recorrência”
“efeitos colaterais quimioterapia”
Meu algoritmo já sabe antes de mim.
Respiro fundo.
Tem uma senhora de lenço estampado. Ela fala com uma calma que me irrita um pouco. Como ela pode estar calma? Será que já se curou? Será que já sofreu tudo o que eu ainda vou sofrer?
Eu não quero ser forte. To de saco cheio disso..
Todo mundo fala isso como elogio:
“Você é forte.”
“Você vai vencer.”
“Guerreira.”
“Tua coragem é contagiante”
Eu não me inscrevi para guerra nenhuma.
Eu queria ser fraca o suficiente para que isso não estivesse acontecendo.
Eu sempre fui saudável. Eu bebia água. Eu treinava. Eu fazia exames. Mesmo assim, alguma célula decidiu crescer errado. Silenciosa. Escondida. Enquanto eu ria, dormia, trabalhava e estudava.
Eu penso na minha mãe. O dia que falei que teria que fazer esse tratamento, ela me disse que hoje a medicina está avançada. Disse que vai ficar tudo bem. Disse como se estivesse decidindo o clima do dia.
Mas eu vi o medo atrás do olho dela.
Eu não queria que ela tivesse medo por minha causa.
Eu não quero ser um problema para ninguém.
Talvez seja isso que mais dói: Virar a notícia ruim na própria família.
A mulher ao meu lado me olha e sorri pequeno. Eu sorrio de volta. É um acordo silencioso: “Eu sei.”
A senhora do lenço diz alguma coisa sobre o “antes ser pior que o depois”. Eu tento acreditar.
E se, no meio disso tudo, eu descobrir que sou maior do que penso?
Eu vou sobreviver?
Essa pergunta é mais difícil do que parece.
Porque sobreviver significa passar por tudo.
Cair cabelo.
Enjoar.
Cicatriz.
Mudança.
Perder partes.
Quem eu vou ser depois? Sera que vou ter disposição para voltar a rotina, sei que a mesma rotina é impossível, não vou pensar nisso agora…
Talvez eu nunca volte a ser a mesma mulher que reclamava de coisas pequenas. Talvez isso me roube a leveza. Ou talvez me devolva uma diferente.
Meu nome ecoa na sala. ” Mais uma medicação de 3hrs ai você está liberada vamos lá coragem”
É estranho ouvir o próprio nome quando você sabe que ele está sendo chamado para atravessar uma fronteira, mais uma quimioterapia.
Eu olho para enfermeira e penso: Meu Deus me de coragem, cada sessão do tratamento é um treino para a alma.
Minhas pernas tremem, pensando mais uma batalha,
Atravessadas pelas agulhas eu penso:
Se eu tive que atravessar essa ponte, que eu não atravesse vazia.
Que eu encontre pedaços de mim que eu ainda não conheço.
Que eu não seja só paciente.
Que eu continue sendo eu, mesmo que diferente.
Eu respiro.
Penso em viver.
Com medo.
Mas viver.
E concluomais uma sessão de 10 horas de medicação…

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