Cartas do Fôlego Suspenso
Experiências, sorrisos e lágrimas compartilhadas em busca da cura
O Que eu Aprendi Sobre Cura participando do grupo terapêutico EMPODERA:
Quando comecei a acompanhar o grupo, eu achava que sabia o que era cura.
A palavra que todas nós queremos ouvir do médico.
O resultado limpo.”não há mais sinais” do tumor.
Durante muito tempo, pensei que CURA fosse isso.
Mas quando temos uma sala cheia de histórias, silêncios e coragem, comecei a entender que CURA é outra coisa.
No começo eu observava mais do que falava. Sentava, escutava, e tentava entender como cada uma carregava sua própria história. Havia lágrimas, sim. Mas também havia risadas inesperadas, abraços demorados e olhares de quem se reconhece na dor do outro.
Ali percebi que a cura não era apenas sobre o corpo.
Era também sobre o que acontece dentro da gente quando a vida nos atravessa de um jeito que nunca imaginávamos. Era sobre aprender a nomear medos que antes ficavam escondidos. Sobre admitir fragilidades. Sobre permitir que alguém escutasse aquilo que por muito tempo ficou guardado.
A cada encontro, eu entendia um pouco mais.
Cura, às vezes, é falar pela primeira vez sobre aquilo que nos feriu.
Cura é ouvir outra pessoa contar sua história e perceber que você não está sozinho.
Cura é chorar sem precisar se explicar.
E também é rir, mesmo quando a vida parece ter perdido o rumo.
No grupo, aprendi que a cura nem sempre é um ponto final. Muitas vezes ela é um caminho. Um processo lento, cheio de voltas, avanços e pausas.
Aprendi que existem feridas que não aparecem em exames. Feridas da alma, da autoestima, da forma como passamos a olhar para nós mesmos depois de tudo o que aconteceu.
E é aí que algo muito bonito começa a surgir.
Porque quando alguém compartilha sua dor com sinceridade, abre espaço para que outra pessoa também encontre coragem. Uma história chama a outra. Uma lágrima acolhe outra lágrima. E, pouco a pouco, o peso que parecia impossível de carregar sozinho começa a ser dividido.
Percebi que, naquele círculo de cadeiras, acontecia algo silencioso e poderoso.
Nós nos fortalecíamos umas nas outras.
Cada palavra dita ali tinha o poder de lembrar que ainda existe vida depois do medo. Que ainda existe esperança depois do diagnóstico. Que ainda existe beleza mesmo depois das cicatrizes.
Foi então que entendi: A cura que eu imaginava era apenas uma parte da história.
A verdadeira cura também mora na escuta, no acolhimento, na coragem de continuar. Ela aparece quando alguém segura a nossa mão no momento em que pensamos que não vamos conseguir.
Participar do grupo Empodera me mostrou que a cura não é apenas voltar a ser quem éramos antes. Às vezes, é descobrir uma nova versão de nós mesmas, mais conscientes da nossa força, mais gentis com nossas fragilidades, mais abertas à vida.
Hoje eu sei que cura não é somente a ausência da doença.
Cura também é presença.
É vínculo.
É humanidade.
E, de alguma forma, toda vez que nos reunimos naquela sala, um pouco dessa cura acontece em cada uma de nós…


Cura Como Fim do Medo
As recém-diagnosticadas chegam com os olhos arregalados. Sentam na ponta da cadeira, como se ainda pudessem fugir.
Quando pergunta-se o que desejam, respondem rápido:
— Quero ficar curada.
— Quero que isso acabe.
— Quero minha vida de volta.
Para elas, cura é retorno.
É apagar o acontecido.
É acordar e descobrir que foi engano.
E nas entrelinhas fica o silencio.
Aqui todas se escutam.
E o que mais escuta-se:
‘Vai passar‘
Durante o Tratamento Cura Como Resistência:
Meses depois, algo muda.
Ja sei o nome das medicações. Já sei o gosto metálico na boca, o cansaço que não melhora com sono.
A definição de cura começa a ganhar nuances.
Há dias em que resistir parece pequeno demais para ser chamado de vitória.
Mas é justamente nesses dias que a resistência se torna a forma mais concreta de cura.
Cada exame enfrentado, cada efeito colateral suportado, cada retorno a clinica é um gesto de permanência no mundo. Uma decisão, às vezes silenciosa, de não desaparecer.
Cura vira processo. Não é mais linha de chegada.
É travessia..
No começo, fala-se do câncer como invasor.
Depois, percebe-se o próprio corpo como parceiro: A linguagem se transforma.
Vamos lá, aguenta mais um pouco.
Algo de reconciliação começa a nascer.
Na Recidiva, Cura Como Reconstrução…
Neste encontro falou-se: Quando a doença volta, a palavra cura sofre abalo.
Eu vi olhares endureceres. Nos depoimentos como se a confiança médica se misturasse com cansaço emocional.
“Dr eu achei que estava resolvido”. Eu estava confiante…
Nesse momento, cura deixa de ser ingenuidade.
Vira escolha diária.
Algumas redefinem:
Cura é conseguir viver mesmo sem garantia.
Outras choram porque a antiga definição morreu.
Eu aprendi no grupo que não podemos apressar esse luto.
Porque às vezes é preciso enterrar uma ideia de cura para que outra possa nascer.
Na Remissão, Cura Como Integração…
As que entram em remissão voltam diferentes.
Elas não dizem mais:
Quero minha vida de volta.
Dizem:
Minha vida agora é outra.
Cura passa a significar integração.
Não apagar a cicatriz, mas incluí-la na própria história.
Não fingir que não houve medo, mas reconhecer que ele ensinou limites.
Não romantizar a dor, mas reconhecer a força que surgiu.
É emocionante quando uma delas aconselha a recém-chegada.
Ali, a transformação é visível.
Aquela que tremia na primeira sessão agora sustenta o olhar de outra.
Cura também é isso:
tornar-se ponte.
O Que Nunca Muda
Apesar das transformações, há algo constante.
Todas, em algum momento, perguntam:
— Eu vou ficar bem?
Às vezes “bem” significa viva.
Às vezes significa em paz.
Às vezes significa sem dor.
Às vezes significa sem medo.
Eu não posso prometer resultados médicos.
Mas posso oferecer presença.
E descobri que, muitas vezes, a cura emocional começa quando alguém pode dizer, sem precisar ser forte:
— Eu tenho medo.
E ninguém tenta corrigir.
O que o Grupo me ensinou:
Aprendi que cura não é conceito fixo.
Ela se move.
No diagnóstico, é esperança urgente.
No tratamento, é resistência.
Na recaída, é reconstrução.
Na remissão, é integração.
Na terminalidade, às vezes, é reconciliação.
Sim, às vezes cura não significa viver mais anos.
Significa viver os que restam com verdade.
Essa é a parte mais difícil de aceitar.
E a mais humana.
No fim de cada encontro, quando as cadeiras voltam ao lugar e o silêncio retorna, eu fico alguns minutos sozinha na sala.
Penso nas definições que ouvi ao longo dos anos.
Nenhuma é igual.
Todas são legítimas.
Se alguém me perguntasse hoje o que é cura, eu diria:
Cura é quando a pessoa volta a reconhecer a si mesma —
com doença, sem doença, apesar da doença.
Cura é quando o câncer deixa de ser a única palavra da própria história.
E isso, eu vejo acontecer ali.
Devagar.
Entre lágrimas.
Entre exames.
Entre mulheres que chegaram buscando o fim da doença —
e descobriram, no caminho, outras formas de ficar inteiras.
Depoimentos: Uma jovem de 27 anos
Ela ainda usa o crachá do trabalho na bolsa, como se não tivesse aceitado que talvez precise se afastar.
No grupo, fala baixo:
— Eu sinto que minha vida estava começando agora.
Ela não chora quando fala da doença. Chora quando fala dos planos interrompidos.
Uma mulher mais velha responde:
A vida não terminou. Ela só mudou o roteiro.
A jovem balança a cabeça, mas pensa:
Eu não queria outro roteiro.
A Mãe 39 anos
Veio direto da escola dos filhos. Ainda tem glitter preso na blusa.
Na consulta médica, pergunta sobre taxas, prazos, protocolos.
No grupo terapêutico, pergunta outra coisa:
Como vocês lidam com o medo de deixar os filhos?
Silêncio.
Não é falta de resposta.
É excesso de identificação.
Uma senhora segura a mão dela.
— A gente vive um dia de cada vez. E ama em dobro enquanto pode.
A mãe anota isso como se fosse prescrição médica.
A Idosa 68 anos
Já enfrentou cirurgia, já perdeu amigas para a mesma palavra.
Ela escuta mais do que fala.
Quando fala: é simples:
— Eu pensei que, na minha idade, seria mais fácil aceitar. Não é.
No grupo, ela admite algo que não disse ao médico:
— Tenho mais medo da solidão do que da morte.
Faço terapia, mas a terapeuta não responde com estatística.
Responde com presença.
A Recém-Diagnosticada 34 anos
Ainda está em estado de choque.
Repete:
— Eu não sinto nada. Isso é normal?
A coordenadora do grupo explica que o corpo às vezes protege a mente.
A sobrevivente do grupo acrescenta:
— Eu também fiquei anestesiada no começo. Depois veio tudo de uma vez.
Elas riem, um riso breve, cúmplice.
Naquela sala, ninguém precisa fingir força.
O Mesmo Abismo
Na oncologia, elas ouvem termos técnicos:
“metástase”, “remissão”, “resposta parcial”.
No grupo, ouvem outras palavras:
“medo”, “raiva”, “culpa”, “esperança”.
Na clínica, tratam o tumor.
No grupo, tratam o silêncio.
A mesma sala acolhe quedas de cabelo e quedas de máscara emocional.
Ali, não importa a idade.
O câncer apaga diferenças sociais, diplomas, profissões.
Fica só o essencial:
Corpo vulnerável.
Coração exposto.
Desejo de continuar.
Um Dia Específico
Chove lá fora. Dia de grupo terapêutico…
Tema de hoje: Terapia narrativa: transformar dor em aprendizado
Às 14h, as cadeiras se organizam em círculo.
Sem jalecos. Sem prontuários.
Só mulheres.
A coordenadora terapeutica propõe:
— Se o câncer tivesse uma voz, o que ele diria?
Silêncio desconfortável.
A jovem responde primeiro:
— “Eu cheguei sem pedir licença.”
A mãe diz:
— “Eu vou te ensinar o que você não queria aprender.”
A idosa murmura:
— “Eu não sou o fim.”
A sobrevivente completa:
— “Eu sou parte da sua história, mas não sou você.”
Algo muda no ar.
O abismo continua ali. Não desaparece.
Mas agora tem pontes invisíveis atravessando-o.
Pontes feitas de escuta.
De identificação.
De frases que começam com “eu também”.
No final do encontro, ninguém sai curada emocionalmente.
Mas saem menos sozinhas, transformadas, falando sobre suas emoções.
E talvez seja isso que aquela sala faz de mais poderoso:
Ela não promete milagres. Ela oferece companhia para atravessar.
Idades diferentes.
Estágios diferentes.
O mesmo abismo.
E, no centro dele, uma roda de cadeiras provando que é possível cair
sem cair sozinha.

Publicar comentário