A Sala de Espera: Onde a vida, a fragilidade e a esperança se encontram.
Relatos reais sobre a vida, o câncer e a força que nasce na espera.
Oncologia
Na parede, um relógio redondo marca 9h12, mas o tempo ali não obedece aos ponteiros. Ele estica, dobra, para. A televisão ligada imagens de lugares paradisíacos, praia, mar azul e exercícios para o verão. Ninguém presta atenção.
Fui a primeira a chegar…Logo em seguida foi a jovem. Deve ter uns vinte e poucos anos. Segura o celular como se esperasse uma mensagem que a salve. Usa lenço. Começou a quimioterapia. O diagnóstico tem quatro meses. Ela descobriu cedo, cedo demais para a idade, cedo demais para entender os termos usados nos protocolos: “estadiamento, recidiva ou recorrência, invasivo,Metástase“.
Ela respira fundo e pensa:
Eu não tenho idade para isso.
Mas o câncer não pergunta idade.
A porta abre.
Entra outra mulher aparentemente 40 anos:
Não parece doente. Parece cansada. Cabelos presos às pressas, bolsa grande, papéis amassados dentro. O marido ficou com as crianças. Ela saiu dizendo que era “só uma consulta”. Ainda não contou que é a consulta decisiva.
Senta ao lado da jovem.
As duas trocam um olhar rápido, aquele olhar que pergunta sem perguntar:
Você também?
A jovem tenta sorrir. A mulher retribui com um sorriso treinado, o mesmo que usa quando os filhos caem e precisam acreditar que não doeu tanto.
Minutos depois, chega uma senhora idosa.
Anda devagar, mas com firmeza. Usa um lenço estampado e batom claro. Carrega uma pasta organizada. Já passou por cirurgia. Já sabe o nome do tumor, o tamanho, o plano terapêutico. Já chorou o suficiente para não chorar agora.
Senta-se e suspira.
Primeira vez de vocês aqui? pergunta ela, olhando para ninguém e para todas nós.
A jovem hesita, depois assente.
Quatro meses, responde quase em sussurro.
A mulher olha para o chão.
Hoje eu vou saber o resto.

A idosa faz que sim com a cabeça, como quem entende uma língua antiga.
A pior parte é o antes, diz ela. Depois que a gente sabe, pelo menos sabe contra o que está lutando.
Silêncio.
A palavra “lutando” paira no ar. Nem todas querem lutar. Algumas só queriam continuar vivendo como antes.
A porta se abre de novo.
Entra a sobrevivente.
O cabelo está curto, crescendo desigual. O corpo ainda carrega marcas invisíveis. Ela cumprimenta a recepcionista pelo nome. Senta-se como quem já conhece o território.
A jovem observa discretamente.
Ela parece normal, pensa.
Ela sobreviveu, corrige a própria mente.
A mulher cria coragem:
Quanto tempo?
Um ano e meio desde o fim da quimio! responde a sobrevivente. Hoje é revisão.
E… A vida volta ao normal? A jovem pergunta, a voz traindo o medo.
A sobrevivente pensa antes de responder.
Não volta ao que era. Pausa. Mas vira outra coisa. E essa outra coisa também é vida.
A idosa sorri com os olhos.
A mulher aperta os dedos até ficarem brancos.
O relógio marca 9h47.

Uma enfermeira chama um nome. Não é o de nenhuma delas. O coração das quatro dispara mesmo assim. Toda vez que a porta abre, alguém vai atravessar uma linha invisível entre o “antes” e o “depois”.
A jovem finalmente fala o que está entalado:
Eu tenho medo de morrer.
A frase cai no centro da sala.
A mulher fecha os olhos por um segundo.
A idosa respira fundo.
A sobrevivente inclina o corpo para frente.
Eu também tive, diz a sobrevivente. Muito. Ela toca o próprio peito. Mas medo não é sentença. É só medo.
A idosa completa:
E a medicina não é a mesma de vinte anos atrás. Eu enterrei amigas que não tiveram as opções que eu tenho hoje.
A mulher, quase inaudível:
Eu tenho medo de deixar meus filhos.
Agora ninguém finge não ouvir.
A jovem segura a mão dela. Um gesto automático, instintivo. A mulher segura de volta.
Não são amigas. Não sabem os sobrenomes umas das outras. Mas, naquele momento, são testemunhas do mesmo terremoto.
A televisão continua com os vídeos de lugares lindos e praias maravilhosas.

O relógio marca 10h03.
Chamam o nome da jovem.
Ela levanta. As pernas tremem. Olha para as outras três como quem pede autorização para atravessar o portal.
A sobrevivente diz:
Vai um passo de cada vez.
A idosa acrescenta:
Respira antes de entrar.
A mulher aperta sua mão pela última vez.
A jovem caminha até a porta.
Antes de desaparecer pelo corredor, ela olha para trás. E naquele breve segundo entende algo que não estava nos exames, nem nos laudos:
Ela não é a única.
Na sala da oncologia, quatro mulheres de idades diferentes compartilham o mesmo abismo, mas também compartilham a travessia sobre ponte.
E às vezes, a ponte é feita só disso:
Uma frase.
Um olhar.
Uma mão que segura outra enquanto o nome não é chamado.
O relógio continua marcando as horas.
Mas ali dentro, o tempo aprendeu a respeitar a coragem.

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