A Vida em Travessia, Um Caminho de Busca e conexões…
Há momentos em que a vida deixa de ser linha e se torna travessia.
Ela cruzou a ponte e entrou na mata como quem retorna a um lugar, mas que nunca tinha visto.

Havia um silêncio ali que não era ausência de som, mas presença de algo que não precisava se explicar. As árvores altas filtravam a luz em fragmentos, as taquareiras se movimentavam com o vento calmo, e o chão respirava sob seus pés. Ela caminhava devagar, como se cada passo precisasse pedir permissão, não à natureza, mas a si mesma.
Diz com a alma: Eu amei demais esse lugar disse, sem perceber que falava em voz alta.
A frase caiu entre as folhas como algo que já não pesava tanto, mas ainda tinha densidade. Antes, ela dizia isso como quem confessa um erro. Agora, soava mais como quem reconhece um caminho percorrido mesmo que torto, mesmo que excessivo.
Parou diante de uma árvore antiga, de tronco largo, quase imóvel no tempo. Encostou a mão na casca áspera e fechou os olhos. E, como acontecia nas sessões, as palavras começaram a surgir, não ordenadas, não pensadas, apenas vindo.
Eu não sei por que estou falando isso aqui… talvez porque você não esteja… ou talvez esteja de outro jeito…Respondeu a terapeuta…
Ela respirou fundo e diz a Vivian:
Eu quero te agradecer.
E, ao dizer isso, soube que não falava somente com Vivian, mas com a árvore também. E com aquela presença que aprendera a reconhecer, a energia que a terapeuta sustentava, e que agora parecia existir também fora da sala, dissolvida no mundo.
Eu pensei que só conseguia falar através das mensagens que trocamos, continuou. Naquele espaço que você criava… onde eu podia dizer coisas sem sentido e ainda assim… não me sentir errada.
O vento leve atravessou as folhas, como uma escuta.
Aqui também está acontecendo: ela disse, surpresa. Eu estou falando… e não estou me interrompendo. Isso é novo.
Abriu os olhos e olhou ao redor. A luz atravessava as copas como se desenhasse caminhos invisíveis no ar.
Você lembra: disse, sorrindo levemente, de quando eu dizia que minha cabeça era um emaranhado? Que eu começava uma coisa e terminava em outra? Que eu me perdia nas minhas próprias palavras? Que o tratamento estava matando meus neurónios…
Ela riu, mas era um riso macio.
E você dizia: “se perca mais um pouco”.
Olhei para a árvore com raízes fortes e grandes.
Ninguém nunca tinha me dado permissão para me perder.
O chão sob seus pés parecia firme, mas não rígido. Como o espaço que ela aprendera a habitar.
Eu achei que você ia me ensinar a amar melhor, continuou. Mas você está me ensinando a… me escutar enquanto eu amo. Isso mudou tudo.
Uma folha caiu lentamente, como se pontuasse a frase.
Eu amei demais, seu convite… ela repetiu, mas agora havia algo de ternura nisso. Eu me dei inteira, sem saber onde eu terminava. Eu me confundia com o outro. Eu precisava ser tudo para não ser nada.
Ela respirou, mais profundamente.

E foi falando… falando sem saber, falando errado, falando coisas que nem eu entendia… que eu comecei a me encontrar em pedaços.
Passou a mão pelo tronco, como quem percorre uma memória.
Às vezes eu dizia uma coisa e, no meio da frase, surgia outra. E eu queria corrigir. Queria organizar. Queria parecer… coerente.
Ela sorriu, com um leve brilho nos olhos.
E você deixa a incoerência viver.
O vento aumentou um pouco, e as folhas responderam.
Eu comecei a perceber… pequenas coisas. Um medo que se repetia. Uma palavra que voltava. Uma sensação no corpo quando eu tocava em certos assuntos. Era como se… meu próprio pensamento começasse a se revelar para mim.
Ela se afastou um pouco da árvore, olhando para o alto.
Eu não sei explicar o que você fazia. Não era só ouvir. Era como se tivesse um campo… uma energia que segurava tudo, mesmo quando eu achava que estava desmoronando.
Fechou os olhos novamente.
Eu trouxe isso comigo, não trouxe?
E, naquele instante, sentiu. Não como uma resposta clara, mas como uma presença suave — algo que não vinha de fora, mas que também não era só dela.
Eu trouxe.
Havia uma leve surpresa, quase infantil, nessa descoberta.
Então talvez… o espaço não fosse só o lugar. Era o que acontecia entre nós. E agora… talvez esteja acontecendo entre mim e… isso tudo.
Abriu os braços, como se incluísse a mata inteira.
Eu ainda falo coisas sem sentido disse, rindo. Ainda me perco. Ainda começo uma história e termino em outra. Mas agora… eu não me abandono nisso.
A luz do sol tocou seu rosto de forma irregular, como se acompanhasse seus pensamentos.
Eu queria te agradecer por isso. Por não ter me dado respostas prontas. Por não ter organizado o meu caos rápido demais. Por ter confiado que… alguma coisa em mim sabia o caminho, mesmo quando eu não sabia.
Naquele lugar havia um altar organizado para meu atendimento…Eu deitei sobre uma mesa organizada para esse encontro, encostada na árvore.

Eu achei que você era a única que podia sustentar aquele espaço. E talvez tenha sido, no começo. Mas agora… eu sinto que algo disso ficou em mim.
Olhou para as próprias mãos, como se as visse pela primeira vez.
Eu posso me escutar.

O silêncio ao redor não era vazio. Era cheio de presença.
Eu não preciso mais amar me perdendo: disse, lentamente. Ou… se eu me perder, eu sei que posso me encontrar de novo. Porque agora eu sei como ficar comigo, mesmo quando estou confusa.
Uma lágrima escorreu, mas não havia desespero nela.
Isso é muito.
O vento diminuiu, como se acolhesse.
Obrigada, disse, finalmente.
E dessa vez, o agradecimento não era uma tentativa de fechar algo, mas de reconhecer. De continuar recebendo essa vibração…
Reconhecer o espaço que foi sustentado.
A escuta que não julgou.
A luz que não cegou, mas iluminou o suficiente.
E, principalmente, reconhecer que agora ela podia continuar, não porque tudo fazia sentido, mas porque já não precisava fazer. Após o atendimento…
Disse: Eu vou conseguir seguir. Não completamente inteira. Mas, pela primeira vez, suficientemente comigo mesma. O atendimento continua, o cone, o campo energético… tudo isso, que antes parecia distante ou até abstrato, começou a fazer sentido não pela lógica, mas pela experiência. Porque há saberes que não se explicam, se atravessam.
Após ela se levantou devagar.
Olhou mais uma vez para a árvore, para a luz, para o caminho à frente e disse:
Eu fui atravessada por sensações, por percepções, por uma energia sutil que começou a reorganizar aquilo que, por dentro, já não encontrava lugar. Como fios invisíveis de luz que, pacientemente, iam tecendo uma nova estrutura dentro de mim.
Não foi imediato. Não foi linear.
Mas foi verdadeiro.
E é dessa verdade que nasce o cuidado.
o mais importante vibrar neste campo.
Estar no campo de corpo e alma.
Nesse campo de energia de luz que se forma — entre mim, e você há algo maior que nos atravessa. Um campo que não pertence a ninguém, mas que nos inclui. Que não controla, mas orienta. Que não força, mas convida.
E eu sinto.
Sinto quando a energia se ajusta, quando o fluxo encontra caminho, quando o caos começa a se aquietar. É como assistir, em silêncio, a um lago agitado que, aos poucos, volta a refletir o céu.
E, nesse reflexo, eu começo a me ver de novo.
Reconexão. Um retorno ao próprio eixo. Um reencontro com uma frequência que sempre esteve ali, apenas encoberta.

Gratidão por essa energia sutil que nos envolve e nos conecta. Gratidão por esse alinhamento que se tece como fios invisíveis, criando pontes entre nós duas e mundos internos. Gratidão por poder ser canal não como alguém que detém, mas como alguém que permite que o fluxo aconteça.
Porque ser uma paciente oncológica, nesse lugar, não é ser conduzida pelo outro.
É caminhar juntas.
É sustentar o espaço para que eu me reencontre.
É confiar no processo, mesmo quando ele não é totalmente visível.
E é, acima de tudo, reconhecer que seguimos todas em busca.
Buscando equilíbrio, clareza, sentido. Buscando um lugar onde possamos respirar com mais leveza dentro de nós mesmas. Buscando lembrar que existe uma ordem, mesmo quando tudo parece desorganizado.
E existe.
Eu vejo essa ordem surgir, sessão após sessão, como um desenho que vai se revelando aos poucos. Linhas que se cruzam, pontos que se conectam, caminhos que se abrem.
No tempo certo.
Do jeito possível.
Com a delicadeza que cada história pede.
Que essa sintonia continue a se expandir.
Que esse campo de energia de luz siga nos sustentando, nos guiando, nos lembrando daquilo que somos além das camadas mais densas. Que possamos seguir nessa travessia com presença, com respeito e com essa confiança silenciosa de que estamos sendo conduzidas — mesmo quando não sabemos exatamente para onde.
Seguimos, então.
Eu, como paciente .
Você, em sua própria jornada.
Mas, no fundo, ambas no mesmo caminho.
Vibrando na mesma frequência.
Tecendo, juntas, essa travessia de luz que não separa — apenas une, expande e transforma.

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