Entre os planos do silêncio; há presenças que não precisam de presença fisíca a todo momento… Apenas de lembrança viva dentro do que não se vê e muita conexão..

Um conto para minha amiga:

Eu quis te escrever algo… Não te escrevo para ter respostas. Nem consolo fácil. Escrevo porque há amores que não se retiram quando a vida muda de forma. Eles apenas ficam mais quietos, mais atentos, mais verdadeiros.

E talvez seja isso.

Desde que nos conhecemos senti que nossa conexão energégica precisava nascer assim, sem ordem, sem defesa, sem a obrigação de fazer sentido… e varias vezes conversamos sobre isso você lembra?

Porque foi exatamente isso que você me deu: Um lugar onde eu não precisava me entender para poder existir.

Um lugar onde se lê um silêncio inteiro de uma vez só.

E meio a toda essa emoção veio Clarice Lispector, não como referência, mas como sensação: Sensação essa de que a vida acontece em camadas tão profundas que a gente só percebe quando já está dentro dela.

Tem algo que ainda me atravessa quando penso em nós, não como uma lembrança, mas como um tipo de presença que fica que transborda uma sincronicidade absoluta. Como se o espaço que você sustentava, tão silencioso e tão cheio, tivesse aprendido o caminho de dentro de mim.

Depois do diagnóstico vc veio me visitar e você me viu em pedaços que nem pareciam eu.
Você me viu sendo excesso, sendo falta, sendo um amor que não cabia em lugar nenhum.

E você… não tentou me caber. Apenas permaneceu com uma escuta e um olhar…

Você não organizou meu caos.
Não nomeou o que ainda estava nascendo.
Não fechou o que precisava continuar aberto.

Você ficou e me viu sem julgamento… Com amor e silencio, sendo somente escuta… Assim entendi que você ficou e me viu. E ver, às vezes, é a forma mais profunda de estar.

Porque o amor, quando é real, não tenta entender tudo.
Ele apenas permanece e escuta.

E esse “ficar e me ver” tão simples por fora, tão imenso por dentro, foi o que, aos poucos, me ensinou a também ficar comigo. Mesmo quando eu estava tão confusa. Mesmo quando eu me perdia no meio do que dizia. Mesmo quando nada parecia fazer sentido. Somente uma revolta e você me sustentou…

Hoje eu ainda me atravesso.
Ainda me desorganizo.
Ainda começo frases que não sei terminar.

Mas já não me abandono nelas.

E talvez seja essa a forma mais silenciosa, e mais profunda, de tudo o que você me fez olhar: Você me ensinou a sustentar a mim mesma sem precisar me fechar.

Tem luz nisso.
Uma luz que não ilumina tudo de uma vez,
mas que permanece…
como você permaneceu.

Esse texto, esse gesto, esse quase-dizer
não é só um agradecimento.

É um reconhecimento.

De que algo em mim continua,
e nesse continuar
tem você, não como falta,
mas como presença que se tornou parte do meu próprio modo de existir.

Obrigada…
por ter sido espaço,
Enquanto eu ainda eu sou travessia.

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