Voltar para casa depois da quimioterapia…

Ninguém te prepara para esse silêncio.
No Centro oncológico por mais duro que seja, existe um roteiro: enfermeira entra, médico explica, remédio pinga no soro, alguém pergunta se você está bem. Existe movimento. Existe gente.
Mas em casa… em casa a vida volta a ser real.
E às vezes real demais.
Eu entro pela porta, olho em volta e penso: é aqui que a luta continua. Só que agora sem aquela equipe inteira por perto. Sem família por perto. Agora sou eu… minha cabeça… meu corpo tentando entender o que aconteceu com ele… e um monte de sentimentos que chegam todos ao mesmo tempo, sem pedir licença.
Tem dias em que a insegurança bate forte.
Uma insegurança estranha. Como se o chão tivesse mudado de lugar e eu ainda não tivesse aprendido a pisar nele.
A família está longe, cada um segue sua rotina no trabalho… Entre sonhos e responsabilidades, nos falamos pelo whatssapp. Minha casa é acolhedora, mas com os tantos efeitos colaterais se tornou cheia de desafios. E às vezes a solidão faz eco dentro da casa.
E aí vem o medo.
Não é aquele medo simples.
É um medo profundo, silencioso, que aparece no meio da noite ou no meio da tarde, quando tudo parece quieto demais. Medo do corpo, medo do futuro, medo do que ainda pode vir.
E junto com o medo… vem uma revolta também.
Revolta de ter que ser forte o tempo todo.
Revolta de uma luta que às vezes parece injusta demais.
Porque ninguém fala muito sobre o depois da quimioterapia.
Falam da coragem, da batalha, da vitória…mas quase ninguém fala da cabeça embaralhada, dos hormônios bagunçados mexendo com tudo… humor, sono, corpo, pensamento.
Tem dias em que parece que minha mente virou uma gaveta virada de cabeça para baixo.
Memórias antigas aparecem.
Traumas ganham voz.
Pensamentos intrusivos entram sem serem chamados.
E fica aquele nó na garganta… que não é exatamente tristeza, nem exatamente medo. É uma mistura de tudo. Um sentimento difícil até de explicar.
A positividade, que antes parecia tão firme, às vezes perde força.
Cansa. Porque lutar é bonito no discurso…mas viver a luta todos os dias é outra história.
Principalmente quando ainda existe filho, pais idosos que requerem atenção, olhar e cuidado.
Quando você precisa continuar sendo suporte… enquanto, por dentro, às vezes sente que está desmoronando aos pouco. Tantos olhares que dependem de você…
E eu penso…
Como é que a gente luta, cuida, trabalha, respira… e ainda tenta reorganizar a própria alma ao mesmo tempo?
E os meus sonhos?
Eles ficam ali… meio suspensos.
Antes eu conseguia imaginar o futuro com facilidade.
Agora às vezes parece difícil até enxergar o dia seguinte.
Talvez porque exista também um luto silencioso.
O luto de um passado que era simples.
De um corpo que obedecia.
De uma vida que parecia previsível.
Desapegar desse passado feliz dói mais do que eu imaginava.
Mas no meio desse turbilhão todo… tem uma coisa que ainda resiste.
Uma pequena teimosia dentro de mim.
Não é uma força heroica, dessas de filme.
É só uma insistência quieta.
Uma voz baixa dizendo:
“Respira. Um dia de cada vez.”
Porque talvez a reconstrução da vida depois da quimioterapia não seja sobre voltar a ser quem eu era.
Talvez seja sobre aprender, lentamente, a existir de um jeito novo.
Mesmo com medo.
Mesmo com cicatrizes.
Mesmo com a cabeça confusa às vezes.
E seguir.
Porque, no fundo…
a vida ainda está aqui.

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